blog

  • Quem já apelou até pra sobreposição de calça jeans e todo tipo de visual mendigo na batalha contra esse nosso frio tropical certamente inveja aquelas gringas lindas, que saem pra vida em pleno inverno usando apenas: casacão na parte de cima e meia-calça na parte de baixo.

    Claro que parte do dom de enfrentar um inverno rigoroso dessa forma é genético e espiritual, mas a outra parte diz respeito ao conhecimento dos materiais mais quentinhos. Assim como brasileira sabe muito bem quais camisetas e vestidinhos passam na prova do verão carioca, parisiense sabe qual meia-calça levar pra comer baguete em dezembro.

    + programa online DESCOMPLICANDO O GUARDA-ROUPA

    A dificuldade na escolha da meia-calça é que nessa peça, ainda mais do que nas outras, a gente não pode se deixar enganar pela aparência: tem mesmo é que ver a composição do tecido porque duas meias da mesma grossura esquentam de maneiras completamente diferentes! Então, a estatégia de olhar apenas a gramatura do fio não funciona. Ser fio 70 em acrílico é uma coisa, já em microfibra é outra coisa.

    Uma meia de microfibra, por exemplo, é feita de filamentos super finos e suaves, mas que não dão conta de proteger perna de moça friorenta nem no inverno de brinks que a gente tem aqui no sudeste brasileiro. Microfibra é tecido para primavera, outono, pra moça do nordeste ou pra calorenta que quer apenas dar uma coberturinha na perna.

    como escolher materiais, espessura de fios, tipos e modelagens!

    o acrílico é uma fibra sintética que tenta imitar a lã e, portanto, é bem mais quentinha. O legal do acrílico é que ele esquenta bastante sem dar volume, então, dá para fazer um monte de look mais cheinho na parte de cima, com suéter grosso, que vai bombar no inverno, sem ter que usar calça na parte de baixo do corpo.

    O tecido acrílico tem um toque parecido com o da lã, fazendo o efeito “boneca de pano”. Por isso, é mais legal usar essa meia com roupas em tecidos/materiais mais lisos e lustrosos — como o couro, as malhas pesadas e o neoprene – do que com outros tecidos cheios de textura, como a lã verdadeira.

    As meias grossonas, de lã, têm uma pegadinha: você olha pra elas e diz “meu deus, é tudo que eu preciso nesse inverno”. Acontece que esse tipo de meia, geralmente sem elastano na composição, deixa o ar passar entre as fibras e não esquenta tanto quanto parece.

    Quem quer disfarçar perninha grossa pode procurar meias mais transparentes, que mostrem mais a pele por entre as fibras. Geralmente, isso significa que a meia terá um fio menor (tipo fio 40) e, portanto, será menos quente. Nesse caso, cabe ao tecido adiposo mostrar do que é capaz! ;-)


  • A T Magazine, revista de moda e comportamento do New York Times, fez um artigo sobre como roupas simples e comerciais costumavam ser a antítese da alta moda, mas agora são o ponto de referência para os estilistas. A crítica de moda Cathy Horyn diz que há uma tendência das grifes que antes traziam drama, teatro e inovação em trazer roupas mais usáveis, menos criativas, porém mais pé no chão.

    Para ela, isso se dá por conta de uma adaptação aos valores atuais: as pessoas estão ligando menos para inovação e criatividade e mais para tradição e adequação. A falta de grana (alô crise financeira na Europa) também faz com que mesmo o público de elite prefira investir seu dinheiro em roupas que vão render mais uso do que em peças originais para usar de vez em nunca.

    um pensamento sobre os significados que as roupas carregam e a simplificação da moda de hoje

    O artigo explica ainda como a moda passou de um período de sofisticação técnica e tradição no início do século 20 para um perído de semiótica e desfiles cheios de significados ocultos na década de 1980. Para ela, a tendência agora é a simplificação geral.

    A Juliana Cunha traduziu pra gente os trechos mais interessantes:

    (…) A ascensão da alta costura no início do século 20 se relaciona com os avanços da comunicação e com a possibilidade de viajar mais, assim como com o interesse incomum do público neste mundo tão rarefeito. Há relatos famosos sobre policiais e taxistas parisienses que eram capazes de reconhecer a procedência de uma roupa de alta costura. Fala-se, por exemplo, de um policial que, na década de 1930, se recusou a prender uma agitadora feminista alegando que ela vestia um Molyneux. Na década de 1960, todos sabiam a última moda, senão por Mary Quant, através dos Beatles.

    Mas, em algum momento no final dos anos 1980, a moda descobriu a semiótica. Roupas de repente adquiriram significado (pense nos esforços para ‘decodificar’ os desfiles de Helmut Lang e Martin Margiela). Você realmente precisa ser um especialista no assunto para entender por que a jaqueta é vestida do avesso ou por que um vestido que te faz parecer uma mendiga é legal. Susan Sontag descreveu uma mudança similar no mundo das artes, em meados dos anos 1960, observando que ‘a arte mais interessante e criativa de nosso tempo não é aberta para amadores; exige um esforço especial; fala uma linguagem especializada’. Hoje, com a aproximação entra a alta moda e a comunicação de massa — com canais do YouTube mantidos por marcas, filmes, grandes espetáculos — há uma pressão para simplificar as coisas. Talvez o surgimento de marcas novas, com desfiles por vezes repletos de um design estranho e banal, também tenha feito com que os designers de elite repensassem as coisas, priorizando uma roupa mais simples.

    (…) Vimos nossos horizontes se encurtarem. A desigualdade de renda é o principal motivo; as pessoas simplesmente não podem se dar ao luxo de arriscar novas experiências. Também é verdade que coisas com as quais nunca tivemos que nos preocupar -como smartphones e novos tipos de entretenimento- tomaram nossas mãos, inspirando-nos em muitos aspectos, mas também estreitando nossa visão com todo o tipo de grades de proteção, de modo que o que antes era nobre hoje é somente uma via rápida e universal para a fabulosidade”.

    +programa online DESCOMPLICANDO O GUARDA-ROUPA: 35 dias pra facilitar o vestir na prática


  • Leandra Medine, do blog The Man Repeller, tem um post maravilhoso sobre o porquê de ela não usar maquiagem. A gente adora a abordagem dela sobre a moda, que diz que devemos nos vestir para nós mesmas, não para os outros (daí o nome do blog, que significa Espanta Homem). Clica que vale ler o post inteirão — aqui a gente cita esse pedaço super significativo do texto, traduzido pela Juliana Cunha:

    “(…) o motivo pelo qual eu não uso maquiagem é que eu sou preguiçosa. E não me entenda mal: eu estou tão vidrada no mais novo creme milagroso antiidade quanto qualquer outra garota. O fato de eu não usar maquiagem não significa que eu não ligue para ter uma pele boa. Eu só não quero passar por essa pressão de que se eu não lavar o rosto, vou manchar todo o travesseiro. De que as bases de sustentação do rosto que eu tinha ontem à noite podem ficar presas na toalha do banheiro. Li em algum lugar que dormir de rímel aumenta a queda dos cílios em até 70%, então eu prefiro focar em ter algum cílio no meu olho, ainda que eles não sejam tão curvados quanto se eu usasse curvex e maquiagem.

    O mais importante, no entanto, é que eu me sinto confortável na minha própria pele. Eu não detesto o que vejo no espelho. Ainda que legiões de outras pessoas não concordem comigo. Aceito o reflexo que pisca de volta pra mim com todas as suas falhas e pontos positivos. Entendo perfeitamente que tenho olheiras intensas debaixo dos olhos. Aprendi a apreciá-las. Notei que meu nariz vem fincando mais anduco a cada mês que passa. E tudo bem. Sei que as rugas que começam a invadir minha testa uma hora vão se instalar lá como moradoras permanentes. Meu pai tem rugas assim e elas me enchem de ternura.

    Meus olhos nunca serão azuis, minha estrutura óssea jamais permitirá que você me confunda com uma modelo escandinava. Eu sou que eu sou e mesmo que isso implique ser “feia pra *******” eu acho isso, sei lá, bonito.”


  • “Pode ser esquisito ouvir isso de uma pessoa que escreve sobre roupas legais (praticamente) todo dia, mas: Você Não Tem Que Ser Bonita. Ser bonita não é algo que você deva a ninguém. Não deve ao seu namorado, marido, companheiro, não deve aos seus colegas de trabalho e, sobretudo, não deve a desconhecidos na rua. Você não deve isso a sua mãe, aos seus filhos ou à civilização de modo geral. Beleza não é um aluguel que você paga por ocupar um espaço no mundo delimitado como ‘feminino’.

    Não estamos dizendo aqui que você não POSSA ser bonita se quiser. (Em outras palavras, abdicar da beleza também não é algo que você deva ao feminismo). A beleza é uma coisa prazerosa, divertida, é algo que satisfaz e que faz as pessoas rirem, frequentemente de você. Mas, numa escala de importância, a beleza fica vários degraus abaixo da felicidade, muito abaixo da saúde e, se levada como uma penitência ou como uma obrigação, passa longe da independência e você vai ter que esfregar os olhos para enxergá-la em meio à neblina.

    A beleza, essa é uma triste verdade, pode ter prazo de validade. Ela é tão apegada à juventude que uma hora (se tiver sorte) você terá de se formar na escolinha da beleza. Às vezes, como aconteceu com Diana Vreeland, você supera tanto a beleza que, antes que perceba, termina alcançando o estilo, ou quem sabe até um estilo único, marcante, pessoal. Mas você não vai chegar lá se seguir todas as placas que dizem ‘esse é o caminho da beleza’. Só se chega lá trilhando o caminho que a gente achar mais interessante (e que se danem os do contra que disserem: ‘mas isso não é BONITO!’).”

    ((Tradução de trecho de post do blog A Dress a Day indicado pra gente tempos atrás pela Flavia Stefani— o texto na íntegra e em inglês tá aqui!))

     


  • Texto de Juliana Cunha pra Oficina de Estilo :)

    Abriram as portas. Quer dizer, abriram a primeira Forever 21 de São Paulo. A loja já chegou com filas de cinco horas e vendendo o dobro do esperando em seu primeiro fim de semana. Achamos que isso era motivo o bastante para pensar um pouco nas consequências dessa chegada tanto no nosso mercado de moda quanto no nosso guarda-roupa.

    Para começar, o que emocionou os consumidores não foi exatamente a vinda da loja, mas a vinda com preços similares aos praticados lá fora quando a praxe no Brasil é que lojas gringas baratinhas cheguem aqui com status de grife e qualidade de sacolão. O problema com a importação do conceito de “fast fashion” para a realidade brasileira é que as roupas vendidas aqui como “fast fashion” têm a mesma qualidade reduzida e custo social e ambiental elevados que caracterizam a “fast fashion” dos países mais ricos, só que por um preço alto. Ou seja, pagamos caro por uma roupa que não compensa nem no conceito, nem no material.

    A relação que o consumidor brasileiro tinha com as lojas de departamento até poucos anos atrás não era uma relação de comprar modinhas descartáveis, pelo contrário, eram lojas ecléticas e relativamente em conta onde as famílias de classe média podiam se abastecer de roupas para o dia-a-dia. Ninguém ia à Mesbla achando que era ok uma roupa durar menos de dez lavagens: o nosso poder de compra não suportava essa lógica. A parte boa dessa limitação de recursos é que o brasileiro teve que estabelecer uma relação menos consumista com o vestuário e até hoje a gente nota uma disparidade entre o que é ser consumista na visão de um brasileiro de classe média e o que é ser consumista na visão de um americano de classe média. (Eles compram muito mais e, sabe de uma? Azar o deles, não se vestem nem um pouco melhor por conta disso!).

    O lado bom da vinda da Forever 21 é que isso pode dar um merecido choque de realidade em lojas como C&A, Renner, Riachuelo e Hering (que antes vendia um algodãozinho honesto, hoje castiga no poliester e nos preços de Zara) e um puxão de orelha em lojas que deviam fornecer um produto melhor, que cobram preço de produto melhor, mas cuja qualidade cai a olhos vistos (Farm, Bô.Bô, M. Officer, MOB, Maria Garcia… estamos olhando para vocês). Não dá para continuar cobrando um absurdo por vestidinhos de tecido artificial e sem forro quando o concorrente está vendendo produtos similares por R$ 25.

    A parte ruim é entrarmos em uma lógica gringa de ter um milhão de roupinhas vagabundas, de comprar uma coisinha toda semana, um vestidinho a cada ida ao shopping só porque “está barato”. Há pessoas no Brasil que não têm mais do que R$ 25 para dar em um vestido. Será que são essas as pessoas que aproveitam cada viagem ao exterior para trazer um carregamento industrial de H&M e Primark? Será que são essas as pessoas que já estavam de olho na abertura da Forever 21 e que correram para a fila? Ou será que quem anda comprando nessas lojas não são justamente as pessoas que poderiam sim comprar menos e melhor, dar mais valor ao processo de produção da roupa, ao acabamento, ao material, ao custo social e que teriam um guarda-roupa mais enxuto e significativo se não cedessem ao canto da sereia da Forever 21 e seus similares?

    Em resumo, o que a gente pensa é que ter uma “fast fashion” que cobra o que vale é super benéfico em um contexto em que o nosso mercado de moda está desregulado e cobrando demais por moda de menos, mas a gente continua desacreditando no conceito de “fast fashion” e achando que quem ganha um pouco melhor faz um favor a si mesmo e ao mundo quando decide ter menos coisas com mais significado. E, já que chegamos até aqui, vamos combinar que é cafona demais querer ter 21 para sempre!


  • Comprimentos entre o joelho e o tornozelo podem achatar visualmente a silhueta. Por outro lado, exibir as partes fininhas do corpo, como o bendito tornozelo, pode passar uma sensação de pessoa mais longilínea.

    Essas ideias parecem se contradizer, certo? A pessoa que quer parecer mais magra pode ler as duas e ficar sem entender se, afinal, ela deve esconder ou mostrar o tornozelo. A verdade é que as dicas competem entre si na teoria da consultoria de estilo: criar linhas horizontais na silhueta expande visualmente, enaltecer o que é fino emagrece visualmente.

    Sabe aquele legume que é cheio de vitaminas, só que é também cheio de gordura? Pois então, o tornozelo é a batata da moda. ;-)

    Usar sapato de gáspea baixa -como sapatilha ou mocassim- e calça reta com a barra um pouco, um nada mesmo, levantada, mostrando só o ossinho do tornozelo, certamente tem efeito emagrecedor. Dessa forma, é como se a gente conseguisse unir as duas dicas: respeitando a “regra” de valorizar as partes finas e, ao mesmo tempo, alongar as pernas tanto quanto possível mesmo com o comprimento intermediário.

    QUEBRANDO AS REGRAS
    No entanto, a coisa mais legal que essa pequena questão do tornozelo traz é que essas manipulações de aparência são mesmo muito subjetivas e equivalentes.  É por isso que a gente acha que dá para usar tudo de forma legal, desde que quem usa tenha clareza de suas prioridades!

    Dá para compensar uma blusa volumosa que não te favorece com uma combinação de tons monocromáticos. Dá para compensar um festival de cores contrastantes com acessórios que chamam atenção para o rosto.

    Para parecer mais magra com o que escolhe vestir, a pessoa não precisa virar um recorte de todos os clichês e ‘regrinhas de como parecer magra’. Às vezes, quebrar um pouco as regras dá um efeito muito melhor. Um efeito de: “Olha, essa garota não é a gordinha caricata que usa preto, colar longo, listras verticais, sapato de gáspea baixa, tudo-ao-mesmo-tempo-agora”.

    Usar elementos “inapropriados” para o seu tipo físico de maneira pensada passa uma ideia de que você tem muito controle da própria imagem, tanto que se permite escapar das regras. Quase como um artista que domina tanto a tradição que pode inovar.
    + ‘MAGRA’ NÃO É ELOGIO
    + FUNÇÃO, GENÉTICA E GRATIDÃO
    + CONSULTORIA DE ESTILO PRA VIVER ISSO DAQUI NA PRÁTICA (TEM ONLINE TAMBÉM!)
    + ESCOLHAS EMAGRECEDORAS DE VESTIR


  • Nos posts aqui da Oficina a gente costuma dizer que tecido natural sempre é melhor que tecido sintético. Via de regra, essa afirmação realmente é verdadeira: os naturais costumam ter mais durabilidade, melhor toque e caimento. O sintético, no entanto, é mais barato, mais comum nas nossas lojas de departamento e também tem seu valor desde que a gente tenha mais atenção na hora de escolher e mais cuidado na hora de manter, afinal, pagar menos também tem seu lado trabalhoso.

    Daniel Raad, uma das pessoas mais importantes da equipe de Alexandre Herchcovitch, uma vez disse para a Fê que é mais esperto comprar o melhor sintético do que a pior seda. Isso significa que embora seja verdade que geralmente as fibras naturais têm mais qualidade em comparação com as sintéticas, isso varia bastante na vida real. Não existe um único tipo de seda nem um único tipo de sintético.

    A lã, por exemplo, tem uma classificação bastante complexa e sua qualidade depende, entre outros fatores, da região do corpo do animal de onde ela foi coletada. Uma lã que vem das patas não pode ser comparada a outra que vem da parte de cima da ovelha. Claro que na hora de comprar não tem como perguntar para a coitada da vendedora se a lã veio do pé, do rabo ou da cachola, mas saber isso explica porque a gente tem várias peças de lã no armário e nem todas esquentam o mesmo tanto nem duram o mesmo tanto.

    Para Tais Remunhão, professora de tecnologia têxtil da Faculdade Santa Marcelina, não existe fibra ruim, o que existe é fibra mais correta para cada uso. “A verdade é que os tecidos sintéticos, por serem mais baratos, muitas vezes não recebem o devido cuidado”, diz a professora. Uma camisa de viscose que custa R$ 100 precisa do mesmo cuidado de uma de seda que custou R$ 500, afinal, a viscose é a versão sintética da seda, ela imita a seda.

    Acontece que – justamente pela diferença de preço – a gente costuma lavar a de seda com carinho e jogar a irmã mais pobre na máquina. Depois pensamos que ela detonou mais rápido apenas porque era barata e sintética!

    Para saber se um tecido sintético tem qualidade, é preciso reparar na trama (as mais fechadas costumam ser melhores), no toque (quanto mais sedoso, melhor) e no brilho (plástico brilha, então, quanto mais opaco, melhor).

    Outro mito comum no assunto tecidos é que as chamadas bolinhas (o nome oficial delas é pling) são um defeito, um sintoma de má qualidade. Tais explica que a formação de bolinhas é uma característica das fibras curtas, como a lã usada nos tricôs. Já os chamados fios penteados, que passam por um processo mecânico de alongamento chamado penteadeira, têm menos tendência para formar bolinha. Esse é o caso da lã fria, por exemplo.

    Aqui no Brasil, é raro uma roupa ser fabricada com 100% da mesma fibra. Fora quando se trata do algodão, a tendência da nossa indústria é misturar diferentes materiais. As misturas de sintético com natural são uma opção bem legal para quem não quer investir tão pesado em uma peça 100% cashmere, por exemplo, mas quer ter um pouquinho de glamour natural na roupa.

    Como professora de tecnologia têxtil, claro que Tais só visita as lojas virando as etiquetas para checar a composição das peças. Avaliando apenas a questão do tecido – sem entrar no mérito estético – as lojas daqui que ela acha mais legais são Daslu, Saad e Carlos Miele. A Fê e a Cris também têm endereços certeiros para encontrar tecidos bons: Cris Barros, Erre, Flavia AranhaGiuliana Romano, Paula RaiaLita Mortari, Richards, Alcaçuz e Leeloo.


  • O desejo é ouro, a posse é prata, já dizia um dos ditados judaicos mais legais de todos os tempos. Aqui no Brasil, o desejo é materializado pelos lookbooks de lojas gringas. H&M, Madewell e até as gringas com filiais como Zara e Kate Spade nos fazem suspirar, só que pela estação errada. Quando lá está calor, aqui começa a fazer um ventinho. Quando por lá as coisas esfriam, por aqui a gente começa a achar que colar esquenta pra burro.

    A internet, essa diva, trouxe um monte de referências que, anos atrás, só quem podia fazer compra de mês na banca de revista importada tinha acesso, mas deixou nossos desejos desajustados. Queremos vestidinho de primavera em julho e passa pra cá esse cachecol em dezembro. Claro que boa parte da culpa vem do fato de que a grama do vizinho sempre parece mais verde, mas a outra parte vem do fato de que, olha, não é que ela é mesmo mais verde? Não é que as lojas gringas capricham mais nessa história de lookbook? Oferecem opção para vários estilos enquanto as daqui parecem se destinar a dois ou três tipos de consumidora meio caricatas, tops.

    É bem difícil ser feliz na moda sem aceitar a pessoa que você é, o lugar onde você mora e as possibilidades que tem. Essa não deve ser uma aceitação conformista, mas a base para tirar o que há de melhor nesses nossos “fatos consumados” e mudar o que dá para mudar tanto na gente quanto nas condições materiais.

    Uma estratégia para ajustar esses nossos desejos deslocados é fazer pastinhas separadas para as diferentes estações, assim ninguém precisa se torturar com referências de calor quando está fazendo frio. Outa ideia é aproveitar nosso inverno ameno para simular uma primavera gringa (/aslokas) com ajuda de meia-calça e cardigãzinho. No verão/inverno, quando as temperaturas se radicalizam lá e aqui, o jeito é aceitar que em dezembro até maxi colar já parece cachecol do lado de cá do Equador.


  • Se você vestir o jaleco de um médico, sua habilidade de prestar atenção e ser cuidadoso automaticamente aumenta. Parece estranho, mas foi isso que os psicólogos da universidade de Northwestern, nos EUA, descobriram durante uma pesquisa sobre o efeito psicológico de determinadas roupas. Segundo eles, vestir uma peça com determinado significado tem efeitos psicológicos sobre as pessoas. No caso do jaleco do médico, o que acontece é que a pessoa que o veste tenta incorporar características que costumam ser associadas aos médicos, como a atenção e o cuidado, tornando-se elas mesmas atenciosas e cuidadosas.

    A gente está careca de saber que aquilo que vestimos é avaliado pelos outros, que eles nos tratam diferente se estamos de vestido ou de calça, de preto ou de roxo, com óculos ou sem, mas a grande questão é que antes mesmo do outro reagir a gente começa a se comportar de maneira diferente de acordo com a roupa que vestimos. Uma vez, Kim Cattrall (atriz que interpreta Samantha em Sex and The City) deu uma entrevista dizendo que calçava os sapatos de salto da personagem mesmo quando o diretor avisava que só iria filmar da cintura para cima. Ela – que na vida real disse que só usava Nike! – precisava dos sapatos para incorporar a personagem. Aqui nos trópicos, o Chico Anísio costumava dizer algo parecido: ele contava que não conseguia imitar a voz de um personagem se estivesse vestido de outro. Não fluia.

    Mesmo quem não é ator consegue usufruir dessa ideia de “vestir o personagem”. Muita gente que trabalha em casa já constatou que o ritmo não flui como deveria se a gente permanece de pijama, por exemplo. Percebe o quão legal isso é? Significa que, ao escolher o que vestimos, podemos escolher quais comportamentos queremos reforçar em nós mesmas. O que você quer ser hoje? Atenciosa, cuidadosa, produtiva, sexy, engraçada?


  • Limpar o armário do que já não cabe no corpo (e na vida da gente) costuma ser o primeiro passo de qualquer revisão de estilo, além de um bom hábito para todo mundo levar para a vida e repetir periodicamente, tipo exame de rotina. Liberar os chakras do guarda-roupa dá uma sensação de leveza e ajuda a gente a enxergar melhor o que tem – as possibilidades mais versáteis de uso dessas coisas! – mas deixa a cama repleta de roupas sem uso, com as quais a gente não sabe o que fazer.

    Para tentar acabar com o dilema da cama abarrotada reunimos quatro boas sugestões de destino para as peças que um dia você já amou e que muita gente pode continuar amando.

    Passe adiante
    Há quem encontre verdadeiros achados no próprio guarda-roupa, mas tenha medo de dar para uma amiga que combina mais com a peça com medo de ofendê-la. A gente acha que quando a seleção é feita com carinho, o tom nunca é de “fica com a minha sobra” e sim de “isso vai ornar melhor em você do que em mim”.

    Pense no quanto é legal ir tomar um café com uma amiga e, de repente, ganhar uma blusa linda só porque ela não está mais com vontade de usar.

    Venda
    Se a peça custou um valor considerável e está impecável, é natural que surja a ideia de reaver uma parte do dinheiro investido, afinal, a gente está se desfazendo de uma compra impensada, não de uma roupa velha. Nesse caso, vale a pena procurar brechós como Capricho À Toa e Trash Chic, organizar uma “swap party” (festinha de trocas e compras entre amigas ou colegas de trabalho) ou recorrer ao Enjoei, site que seleciona e anuncia peças legais com descrições impagáveis. (O Enjoei cobra comissão de 20% sobre o valor final da peça, que é definido pelo antigo dono. Já os brechós não divulgam o quanto acrescentam no preço de revenda.)

    Se você tem uma grande quantidade de peças boas a serem desovadas, vale montar um blog com fotos e preços e divulgar para as amigas (mesmo no Facebook!), assim é possível fugir das comissões. Se os posts estiverem recheados de coisas realmente bacanas, vale até pedir que as amigas divulguem pra outras amigas. ;-)

    Doe
    A doação é de longe o destino mais nobre que a gente pode dar às roupas que não usa mais. Essa época do ano, quando estamos nos aproximando do inverno, muitos estados fazem campanhas de coleta de agasalhos. No site da Campanha do Agasalho do Estado de São Paulo há uma lista de todos os postos de coleta. Dá pra buscar o ponto mais perto da sua casa usando o CEP. Fora das épocas de campanha, quase todas as instituições de caridade como asilos e orfanatos aceitam doações de roupas em bom estado. Aqui em SP o Exército da Salvação e o bazar da Unibes retiram doações em casa mediante ligação/agendamento.

    Na hora de doar é preciso ter o mesmo carinho que a gente tem ao separar uma peça para dar para uma amiga: não vale entregar nada sujo ou rasgado.

    Das mais de 6 milhões de peças arrecadadas pela Campanha do Agasalho de São Paulo em 2011, cerca de 40% acabarem leiloadas para empresas que, depois de passá-las por um moedor, transformam os trapos em estopa. Isso porque tem gente que doa roupas sem nenhuma condição de uso. Para não pagar o mico de ter suas doações transformadas em estopa, seja fina como Hebe Camargo na antiga propaganda da campanha e doe os paetês que te ajudaram a brilhar na televisão (brinks).

    Reaproveite
    Essa dica vale sobretudo para roupas com estampas incríveis. Se ficou velhinha e já não satisfaz como roupa, vale tentar usar a estampa luxo para outra finalidade como almofadas, faixas para o cabelo e até ecobags.


curtimos

ideias complementares às da Oficina