"ESPELHO, ESPELHO MEU"

(post original de 22 de junho de 2012)

A revista Moda da Joyce Pascowitch entrevistou o psicanalista Flávio Gikovate sobre comportamento, consumo, vaidade e claro, moda. Compartilhamos aqui os trechos que poderiam render reflexões ativas nas cabecinhas de todo mundo que curte roupas e internet. Ficou longo mas vale a pena ler até o fim: pode render identificação e pode dar vontade de viver de um jeito diferente em relação a compras e looks. Vê se não faz um super sentido (e que delícia seria conscientizar isso tudo pra viver melhor, hein?):

moda: Quando a vaidade deixa de ser saudável?
FG: Ela nunca é. Estamos diante de um mundo em que bem-estar, felicidade e saúde não significam nada. A modernidade líquida, conceito definido pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, é quando você se orgulha do que consome, mas não do que produz. A vaidade é essencialmente aristocrática. O indivíduo quer estar entre os poucos que têm bens quase inacessíveis como carro, roupa ou jóia. Apenas 0,1% da população tem beleza, magreza, fama e fortuna. Os outros 99,9% são infelizes.

((misericórdia. que vergonha. mas senta que lá vem história.))

reflexões valiosas do psicanalista Flavio Gikovate sobre consumo, moda, vontades e o mundo em que a gente vive.

moda: Pessoas mais maduras emocionalmente precisam de menos símbolos?
FG: Sim, mas elas continuarão vaidosas porque não se trata de uma característica física apenas, pode ser intelectual. É cada vez mais difícil encontrar alguém em paz consigo mesmo, feliz com seus vínculos de amor e amizade. Essas pessoas têm menos necessidade de bens materiais. Infelizmente, a competição e o consumo afastam os indivíduos e aumentam a vaidade, enquanto o amor é cada vez mais raro. Isso faz com que as relações percam estabilidade, solidez e continuidade, e causa frustração. A sociedade não tem interesse em pessoas mais felizes porque elas consomem menos, ou seja, o capitalismo se alimenta da infelicidade humana. Os mais alegres gastam seu tempo com coisas que realmente gostam, em vez de comprar. E a vaidade continua existindo: vaidade de ser alguém decente, de ter vínculos afetivos de qualidade, bons amigos. Existem fontes de felicidade mais baratas e não excludentes como a dança. Tem música para todo mundo, assim como amor, mas o foco é, cada vez mais, em aspectos como beleza e riqueza.

((ó como a gente tem que ficar ESPERTA nessa vida! e cuidar da gente mesma, identificar o que importa de verdade, focar no que faz a gente viver melhor — e não no que põe a gente pra baixo.))

moda: O desejo é ruim?
FG: É impossível não desejar, mas vivemos numa cultura que valoriza muito esse sentimento. Isso leva ao sexo casual, por exemplo.Você não pode pensar em casais monogâmicos estáveis porque o interesse por outra pessoa pode surgir. Ora, o desejo não é uma ordem! O máximo que pode acontecer quando ele não é realizado é uma pequena frustração, mas ninguém suporta passar por isso. A mesma coisa acontece com o desejo de consumo. Queremos algo até obtê-lo e, assim que conseguimos, parte-se para o próximo objetivo. A vida fica infernal. A situação oposta seria focar no aspecto sentimental, o apego. Em vez de trocar de aparelho celular, posso perfeitamente começar a gostar dele. O consumismo vem de uma relação erótica com objetos no lugar de um elo romântico em que se tem o mesmo relógio para a vida inteira.

((quem quer parar AGORA de fazer sexo casual com as roupas mais baratinhas do mercado e começar a namorar com roupas de qualidade levanta a mão \o/ e quem quer se encher de coragem pra não ter medo de experimentar frustração em prol de amadurecimento emocional e economia levanta também \o/))

moda: É possível definir uma pessoa pelos objetos que ela consome?
FG: Se ela usar uma roupa que a defina, sim. Quem se veste só com grifes mostra apenas sua posição econômica: você pode até dizer que ela é esnobe, mas não saberá nada sobre sua personalidade. Para conhecer alguém, é preciso que a pessoa se vista sempre da mesma forma. Há uma enorme diferença entre a cultura européia e americana. Os europeus consomem boas coisas em quantidades pequenas. É o apego aos objetos. Uma roupa bacana é aquela que deixa você aparecer, que te caracteriza. O consumo não deixaria de existir, as peças precisariam ser trocadas eventualmente. Até porque a roupa que escolhemos é a primeira coisa que aparece aos olhos dos outros.

((isso que o psicanalista chama de “se vestir sempre da mesma forma” a gente chama de coerência — que vem de estilo pessoal definido e aperfeiçoado de tempos em tempos. quando a gente sabe quem a gente é e o que é importante pra gente, é possível (e até simples!) escolher o que vestir de acordo com isso, pra transparecer isso. mas né, tem que olhar pra dentro!))

moda: Como lidar com essa troca frequente de desejos?
FG: O desejo é induzido pela indústria. Você sobe ou desce a cintura da calça jeans pra vender mais. Para encarar isso de forma saudável é preciso se fortalecer internamente. Com o crescimento emocional, você ganha mais consciência e não se deixa seduzir tão facilmente. O problema é que a maioria das pessoas não tem controle nenhum sobre o tema e aceita sugestões da publicidade. Em uma época em que, teoricamente, a liberdade é máxima e todos poderiam ser superirreverentes, as pessoas nunca foram tão parecidas e obedientes às normas. Não existe nenhum impedimento para não consumir e a maioria o faz loucamente. Não é proibido andar fora da moda.

Todo esse conteúdo causou impacto demais aqui na Oficina, por isso a gente não pensou duas vezes pra compartilhar — e quem descolar um print da revista ou um link com a entrevista toda pode colaborar nos comentários. O próprio Flávio Gikovate publicou o PDF da entrevista inteirinha, tem que ler!

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