moda, ícones e exclusividade

O sociólogo Georg Simmel (1858-1918) escreveu que a moda depende do conflito entre “adaptação à sociedade e afastamento individual de suas exigências”. Mary Ellen Roach e Ellen Eicher sugeriram que “a sobrevivência emocional do ser humano depende, de certa maneira, de sua habilidade para alcançar um equilíbrio entre conformar-se à sociedade e preservar um senso de identidade própria”. Moda e indumentária são modos pelos quais os indivíduos podem diferenciar-se como indivíduos e declarar alguma forma de singularidade. (M. Barnard)

A gente já escreveu um tanto aqui sobre as vontades que a roupa nos desperta: vontade de se sentir especial, vontade de pertencer a um grupo definido e ao mesmo tempo se destacar dos demais integrantes do grupo, vontade de definir identidade… e depois dessa trapalhada entre globais e maria bonita extra deu vontade de escrever mais:

maria-bonita-extra.jpg

É a síndrome da classe média? Tipo cada um tem os ícones que merece? Porque a gente ama Kate Moss, Gweneth Paltrow, Stella McCartney e Sofia Coppola, prestamos atenção no que elas vestem e tal. Mas não tem budget pra vestir tudo que elas vestem, então a gente recorre a marcas brasileiras procurando peças fofitas, descoladas, com alguma qualidade (ainda assim com preço “diferenciado”) e o que acontece?? Globais usam tudo que a gente tem e ainda se dão mal ao serem fotografadas usando ao mesmo tempo. Filme queimado duas, três mil vezes.

(Também tem post sobre essa mesma trapalhada (anterior ao nosso!) com observações bem valiosas no Cute Underwear)

Marcos Mion (sim! eu leio ele e ouço Paris Hilton!) ecreveu numa coluna antiga que “se você não pode ser o único a ter aquela roupa então pelo menos que você seja o primeiro a usá-la”. E quem me conhece lembra do episódio em que eu comprei um vestido bem lindo dessa mesma marca, pra usar no casamento de uma amiga querida (aeeee, Paula!), e a Sol usou o mesmo vestido em Boiadeiros (alguém mais assistiu América?), uns dois dias antes da minha vez de usar. Eu fiquei bem brava e assassinei mentalmente todo mundo da assessoria de imprensa da maria bonita extra.

E aí que eu tenho que pedir licença pra continuar o raciocínio me expondo e talvez me submetendo ao ridículo (sejam bonzinhos no julgamento, please).

Na ocasião (desse episódio do vestido) o que mais me deixou brava foi o vestido ter sido usado numa cena corriqueira, num lugar horroroso (era Boiadeiros, for God’s sake!), por uma atriz de quem eu não sou fã. Tipo nada nela me atrai, nem eu gostaria de associar nenhum valor dela ao que eu uso. A Sol era a última pessoa que podia servir de referência pras pessoas reconhecerem a minha escolha. E as pessoas reconheceram o vestido por causa dela (e alguns riram muito da minha cara), e eu não fiquei feliz at all.

Ao mesmo tempo, no último sábado eu usei num casamento um vestido incrível da Adriana Barra, que eu comprei porque vi a própria usando (sou 100% vítima da história do ‘espelho mágico’). O casamento não era aqui em SP e acho que ninguém na festa conhece Adriana Barra ou reconheceria uma estampa dela. E eu fui bem elogiada, mas ninguém (fora dos Jardins) identifica o vestido como uma criação especial porque não apareceu na novela. E eu (kinda) fiquei meio frustrada porque as pessoas me acharam fofa mas não alcançaram o “valor” do vestido: criação, estampa, modelagem, exclusividade….

E olha com o que eu vivo desde então: se o vestido tivesse sido usado numa novela e eu fosse “identificada”, eu ficaria feliz? Se ele fosse usado por alguém trash, ia perder a graça ou ainda valia pelo reconhecimento? E se Adriana Barra fosse assim, super “identificável”, eu ainda ia querer usar? E se outra pessoa, alguém que eu admiro e com quem eu poderia querer parecer, tivesse usado o meu vestido maria bonita extra (na época do casamento da minha amiga Paula), ia ter problema?

Então a moda se afirma como cíclica e paradoxal (again and again) pra me fazer enxergar que o que é um problemão pra mim pode ser uma mega solução pra outra fofa qualquer. Que o que me irrita nas fotinhos que ilustram esse post pode ser exatamente o que faz alguém feliz.

Sim, de um jeito, cada um tem os ícones que merece. Não tem fundamento?
Alguém se identifica????

13 respostas para “moda, ícones e exclusividade”

  1. Luigi diz:

    Gente a fotinho faz minha irmã mega feliz!! Ela vive vindo me pedir ajudar p/ escolher roupas p ela sair ou vestidos para ir nas festeenhas de 15 anos. Eu, com meu gosto ás vezes peculiar, acabo escolhendo combinações ou peças mais descoladinhas, diferente do que toda menina com seus 14, 15 anos estariam usando. Mas pergunta se minhas opiniões são aceitas? “Magina se eu vou usar isso, só eu vou estar assim!” é o que eu mais escuto.

    Graças a Deus se só eu estiver assim! Não gosto, nem tento ficar igual a todo mundo! Mas infelizmente não é assim que a grande maioria pensa.

    A possível exteriorização do subjetivo e uma maior identidade que a moda pode propiciar à alguém, acaba sendo deixada em segundo plano, quando milhôes tentam seguir as mesmas tendências e se vestir igual. Nada contra seguir tendência - eu mesmo sigo algumas - mas adaptar a tendência ao seu estilo é fundamental.

    Uma vez li um texto do Ted Polhemus falando que cultura de moda é fundamental para que a pessoa possa entrar no “super mercado de estilo” e a partir das diversas referências - e por que nâo tendências - montar seu estilo próprio.

    E acho que é bem isso o que acontece aqui… Como cultura de moda é coisa rara por aqui, todo mundo acaba caindo nas “modinhas”.

    E agora vamos parar com essa chuva de post que eu preciso trabalhar!!! heheh!

    Bxos,
    Lu

  2. Rebeca de Moraes diz:

    Legal a reflexão, Fer. Eu também tinha colocado isso no meu blog, mas não refletido sobre. É engraçado como a gente se baseia em algumas referências mas, por outro lado, não quer que elas sejam iguais a nós.
    Lembro que a minha mãe me deu um colar que eu adorei, mas era idêntico ao que a Claudia Raia (acho que no papel de Samira) usava em Celebridade. Eu quase não usava, apesar de achar lindo, pq não queria que ninguém achasse que eu estava usando só pq estava na novela. A intenção realmente não era essa.
    Mas como eu ainda - sim, ainda - definitivamente não tenho budget pra usar as roupas que aparecem nas novelas, eu não tenho problema se sair como as globais por aí. O que acontece às vezes é ver alguém na rua mesmo com a minha blusinha da C&A ou da Renner. Mas, é claro, eu sempre acho que tô usando de um jeito mais estiloso - ou não, o que é mto triste. hehehe Afinal, se nem eu achar isso, quem vai achar, né?
    Beijo!

  3. flavia diz:

    hahaha
    same here. :)

    me acho até egoísta, mas odeio quando vejo alguém vestindo algo parecido com o que estou, ou com o meu estilo. até para amigas eu não gosto muito de dizer onde comprei um modelito imperdível. menina má.

    e entre globais, odiei quando a cláudia abreu (a laura de celebridades) começou a usar lencinhos no pescoço, apetrecho tão por mim adorado. :p

    e sobre repetecos, minha dica é os bons e velhos brechós. mais exclusividade impossível.

    até. gostei do blog.

  4. Jane diz:

    bom, o episódio das celebs carioca com o mesmo modelito da maria bonita extra tá super comentado na blogsfera de moda! mas é aquela coisa né? a gente sabe que ter uma peça exclusiva é praticamente impossível nos dias de hj, mas daí uma peça virar epidemia, noooosssa! queima o filme total ;>
    eu não quero o macaquinho xadrez da mbextra!

  5. O Menino diz:

    bom, o problema das roupas realmente não acontece muito comigo. mas acontece bastante com óculos. fiquei feliz quando Gwen Stefani apareceu com um modelo que eu tenho, mas odiei quando o Raul Gazzola apareceu com outro par que também é de minha posse na Vidas Opostas.

  6. Fabio Ishi diz:

    Mas nao eh bastante simples? Olha a foto das meninas com o macacãozinho da MBE: soh a Carol arrasa.

  7. clarice diz:

    Vc arrasou meismo no casamento do sábado e, pelo menos as pessoasa mim sabiam o “valor” do seu vestido mais q d+. E sem eu perguntar ouvi coisas do tipo: ” A Fê estava muuuuiiiito linda !!!! ” (tá ).
    Super bjop, saudades…

  8. carol diz:

    Tadinha !!!!!! Uma roupa tão bacana… Passando por isso???? Ohhhh….Ela Não merecem.
    bjs

  9. Daniel Mendes diz:

    O que o Brasil precisa, ou melhor, nos consumidores precisamos, e’ poder devolver uma compra e ter o dinheiro de volta, como e’ no exterior…

    Ai vc ia, devolvia seu vestido, e comprava outro em outra loja se assim quisesse.

  10. alexandra diz:

    Moro no interior e identifico de longe uma estampa da Adriana Barra, que eu acho o máximo, mas já é bem identificável. Já em relação a Maria Bonita Extra, tive a sorte e usar o meu antes da Olívia usar nessa semana o dela.

  11. Oficina de Estilo » celebridades x modelos diz:

    [...] o olhar fashion. Por isso é ruim quando elas aprontam baixarias ou viram anoréxicas. Por isso as novelas daqui podiam produzir celebridades mais bacanas pra gente ter referências nacionais…. Por isso a Vogue tá cheia de atrizes e cantoras nas [...]

  12. Larissa diz:

    Eu tenho um vestidinho com essa mesma estampa xadrez e a parte de cima é exatamente igual. Qdo vi elas usando na tv, pensei.. nossa será que vai ter um monte de gente com esta estampa?
    Sinceramente, não ligo, o que faz a roupa sou eu e não é a roupa que me faz.
    E esse negócio de ser a primeira a usar, só funciona com quem é famosa. Eu como mera mortal uso várias vezes a mesma peça, roupa de qualidade é para durar.
    Lógico que eu gosto de estar bem vestida, até por isso frequento blogs de moda, mas gente não supervalorizem a roupa.

  13. lciana soua nascimento diz:

    eu quero abri minha propria loja de estampa de roupas,e roupas infantil e outras.meu irmão fais varios desenhos maravilhoso,desenhos de desenhos animados,flores,e outros desenhos.o que eu tenho que fazer?obrigada.

deixe seu comentário