8.
Nov.
07.

pense moda: debate entre fotógrafos

A INFLUÊNCIA INTERNACIONAL: qual a relevância real do material vindo de fora no trabalho dos fotógrafos brasileiros? E quais os obstáculos para se tornar uma potência criativa na área?
por Ricardo Van Steen (mediador), Bob Wolfenson, Daniel Klajmic, Mario Daloia e André Passos

Os fotógrafos participantes da mesa têm formas e estilos diferentes, além de olhares diferentes sobre o mercado da moda e da fotografia. Todo mundo já sabia que ia ser uma troca incrível de idéias, e a conversa entre os fotógrafos rendeu também uma conversa com a platéia. Foi o debate mais interativo de todo o seminário, com muita muita muita participação de todo mundo da platéia: editores, outros fotógrafos, jornalistas… e todo mundo saiu mais inteligente, com mais perspectivas sobre vários assuntos:

IDENTIDADE: O mediador Ricardo Van Steen abriu o debate questionando quem seria o culpado por não ser possível criar um padrão brasileiro de beleza e o porquê de se seguir padrões internacionais na fotografia. Bob Wolfenson defendeu que aqui no Brasil nós ainda estamos em processo embrionário de fazer moda e que nosso calendário é defasado seis meses em relação ao calendário internacional, por isso a indústria engatinha. Mesmo assim o fotógrafo afirmou que é preciso registrar uma beleza “sem fronteiras, contemporânea, se desfazendo de caricaturas de beleza nacional”. Mario Daloia completou: “Foto brasileira é foto feita no Brasil. Se o fotógrafo desenvolve um apersonalidade, esse é o trabalho dele e esse trabalho é brasileiro. Não tem porque olhar pra trás, olhar pro sertão, não tem porque ser regionalista”.

REFERÊNCIAS: Daniel Klajmic quis saber se editores e consumidores estão preparados para ver imagens diferentes do que é produzido fora do Brasil. André contou que quando é chamado pra fazer uma matéria/história, quem o chama geralmente quer tudo igual a algum editorial de alguma revista importada - essa é a referência (todos concordaram que isso é o que mais aocntece!). E ainda lembrou que quando trabalhou fora do Brasil as referências eram bem mais legais e estimulantes, como um filme, por exemplo. Bob sugeriu que os editores precisam trabalhar como missionários e catequisar seus leitores: “se um editor tem 30 páginas pra fazer moda, então 20 páginas podiam ser feitas a partir das referências de praxe - ruins - e que outras 10 páginas podiam trazer imagens e idéias novas, frescas e autorais. Pra então essas 10 virarem 20 e depois 30″.

Ricardo Van Steen sentenciou que um fotógrafo consegue um trabalho bacana quando “consegue colocar numa mensagem visual a maior quantidade de camadas de interpretação” possível. Que o profissional tem que trazer “exemplos de sentimentos ocultos para dividir com outros (profissionais) participantes do trabalho, para então esses outros participantes também contribuírem com seus próprios exemplos” - daí se alcança um bom trabalho. Todos concordam que o problema de se ter outros editorias como fonte de inspiração é que editoriais são referências diretas, é moda olhando pra moda: há que se buscar referências em outras fontes.

Todos os participantes da mesa também concordaram que o que diferencia uma revista de outra é sua linha editoria e não o país em que cada uma é feita. Bob Wolfenson disse que se colocarmos uma Vogue francesa, uma Vogue inglesa e uma Vogue americana lado a lado, com legendas e textos ocultos, somente pelas imagens é possível identificar cada uma delas - e é verdade! André comentou que a revista W é uma publicação com conteúdo super fútil (”para as mulheres mais inbecis”) mas que tem imagens maravilhosas, editoriais lindos; e que a Vogue Brasil tem conteúdo muitas vezes mais interessante mas imagens infinitamente mais pobres. Bob Wolfenson lembrou que as revistas não-brasileiras “vendem moda há 800 anos” e que é covardia comparar o mercado editorial brasileiro aos de fora: “é como se preparar para uma corrida todos os dias e no dia da corrida seu concorrente sai mil metros à sua frente”. No fim, todos concluíram que “referência é ponto de partida e não de chegada”, e que mais editores e jornalistas deviam estar presentes para que a discussão se desenvolvesse com réplicas e tréplicas.

FOTÓGRAFOS EM INÍCIO DE CARREIRA: Bob chamou atenção para um “desperdício de potencialidade de talento” aqui no Brasil. Disse que hoje existem 10 fotógrafos que reinam para cada 100 que tentam se estabelecer na profissão. Ricardo Van Steen disse que o pior fotógrafo é aquele que tem “portfólio polivalente”, com vários tipos de fotos diferentes. Daniel Klajmic discordou e disse que não dá pra viver de fotografia no Brasil com um portfólio restrito, que o profissonal tem mesmo que fazer de tudo. Bom Wolfenson soltou o que foi uma das frases mais celebradas desse debate: “No Brasil se fotografa de urubu a cobra d’água”. André Passos completou: enquanto trabalhava fora do BR tinha um trabalho focado, mas com assinatura. Quando chegou de volta ao país viu que as coisa snão funcionavam dessa maneira e teve que diversificar para conseguir se destacar. No fim ele não achou ruim porque “diversificar estimula a ccriatividade”. Van Steen lembrou de Sacha Hochstetter, que é supe rjovem e que faz sempre po mesmo tipo de foto - e que ainda assim tem se destacado e conquistado espaço no mercado. Fechando esse tópico, Bob disse que “não importa o que é fotografado, ams como é fotografado” e André respondeu dizendo que essa idéia é bem poética, mas que não é real.

EDITORES, VEÍCULOS E “RECEPTORES”: Foi levantada a questão de que o grande problema de identidade das fotos de moda no Brasil não reside no fotógrafo e sim nas etapas e filtros pelos quais a foto passa antes de ser publicada - direção de arte, número de páginas disponíveis na revista, vontades das editoras, etc. Bob Wolfenson disse que às vezes cabe ao fotógrafo “educar” também quem encomenda a foto/o trabalho e ponderou: “não se deve ter as revistas como vilãs - não há tantas fotografias ruins quanto as fotografias de moda” - seguiu dizendo que o profissional deve se immpor se se achar injustiçado, tem que oferecer alternativas. Ao mesmo tempo, se o fotógrafo é um fotógrafo/artista e tem algo que interessa, se tem um “pacto” com as pessoas, as editoras deveriam então identificar esse perfil e convidar esse fotógrafo para trabalhos relacionados. E se falou que quem trabalha para um determinado veículo deve compreender o veículo, mas que o veículo também deve compreender o fotógrafo - funciona como uma via de mão dupla. Daniel ressaltou que o trabalho em equipe é fundamental pra foto funcionar, que o fotógrafo precisa de um “espaço elástico” em que possa participar da elaboração da história.

DIFUSÃO E EXPANSÃO: Jackson Araújo participou ativamente do debate, da platéia mesmo, e acrescentou que “é preciso fazer com que a moda de São Paulo chegue ao Acre (por exemplo) - hoje a moda que chega lá é a moda da revista Manequim”. E foi dito que se um italiano tira uma foto na porta de casa e ‘o negócio dá certo’, o mundo inteiro fica sabendo daquilo. Aqui no Brasil, se a mesma coisa acontece, no máximo SP inteira fica sabendo, e só. Somos continentais e precismos trabalhar isso.

Jackson ainda disse que, como a moda só faz sentido como produto quando é vestida/usada, ela se realiza quando é fotografada. “A fotografia é a primeira interpretação da idéia do estilista, por isso a fotografia de moda pode ser considerada a cereja do bolo”, concluiu Bob Wolfenson.

A Oficina


A Fê e a Cris são personal stylists de gente da vida real e dividem, aqui no blog, tudo que aprendem nesse trabalho.