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nov.
07.
pense moda: paulo borges
O TRABALHO DE UM VISIONÁRIO: O poderoso chefão da moda dá um panorama sobre os novos rumos da moda brasileira – os conglomerados de moda são a salvação das marcas pequenas?
“O poderoso chefão da moda”, Paulo Borges, fez todo mundo chegar pontualmente ao Pense Moda e super valeu a pena. Paulo começou sua palestra explicando que o nosso mercado de moda não está preparado para vender idéias, vender design, mas que só valoriza o produto. Por isso mesmo ele não considera o São Paulo Fashion Week um evento e sim um “projeto para planejamento e desenvolvimento da moda nacional” para dar resultados em 30 anos! O país ainda tem desafios enormes para serem resolvidos e não dá ‘pra ter ansiedade: “nesse aspecto eu aceito o título de ‘visionário’ porque estou pensando longe, planejando o futuro” – ele enxerga que a moda deve ser percebida como cultura, como desenvolvimento estético.
Paulo seguiu conversando sobre a indústria da moda no Brasil: “o complexo criativo de moda (no sentido de indústria mesmo!) segue sem planejamento algum durante todos esses anos e hoje tem o posto de segunda maior indústria do país, segunda maior contratadora – e primeira contratadora de mulheres”. Quem está “de fora” enxerga a moda como muito glamourosa, com pessoas com questões de ego (porque é uma área que lida com estética), mas que deveria ser enxergada claramente como um negócio sério. E daí já entrou no assunto ‘conglomerados de moda’ dizendo que é preciso mais criatividade no processo de fazer moda, criatividade no negócio: “de dois anos pra cá temos visto o movimento desses conglomerados, e nos próximos anos ainda teremos boas surpresas por causa deles”. Paulo Borges vê todo esse movimento como ‘muito positivo’ porque esses grupos estão vendo a moda como negócio. Disse que como consequência muitas marcas vão ficar mais fortes e outras vão desaparecer, mas que tem que ser assim mesmo – esse é um mercado volátil em que o consumidor não é fiel.
A palestra teve também uma parte didática sobre as opções e direções dos recém-formados em moda no Brasil. Esse é um mercado super competitivo e Paulo Borges falou muito objetivamente que fazer um negócio de moda é muito caro e tem um risco alto: “na época do Phytoervas Fashion existiam três ou quatro faculdades de moda, hoje são mais de cem (entre cursos de especialização, etc etc etc) – pra onde vão todos esses formandos?” E ponderou que se todo mundo que se forma resolver abrir sua marca própria não vai haver espaço no mundo (ele não falou só de BR!) para absorver tudo isso. E deu a receita do bolo prontinha: para se ter um negócio prórpio ou uma marca própria é preciso ter personalidade super definida e forte, capacidade criativa e capacidade de gestão – qualidade é palavra-chave para a próxima década, tanto no produto quanto no negócio. Só vai crescer quem estiver planejando, se estruturando e olhando para o futuro: “se não for um grande negócio vai ser um grande desastre”. Paulo lembrou que ainda assim é preciso contar com fatores externos, tipo ninguém garante execução brilhante e aceitação do público.
E essa fala toda não pareceu, nem de longe, pessimista. Paulo Borges deu recomendações aos jovens designers e a primeira delas é ‘não montar o próprio negócio logo ao sair da faculdade’. É importante viver o mercado, experimentar trabalhos diferentes, conhecer pessoas e estagiar, atuar muito como assistente. Ele acha que faculdade é uma etapa necessária mas que não dá experiência de negócio, e ressalta que hooje o Brasil tem mais de trinta mil empresas de moda e que não existem somente empregos na área de criação, mas também em marketing, em modelagem, em assessoria de imprensa e mais.
Paulo voltou a falar dos conglomerados e disse que esse é o “pulo do gato”, o lado positivo dos investidores: somar gestão com criação. Eles trazem para a moda um olhar econômico, colocam metas, acrescentam profissionalismo para um desenvolvimento que estava empacado por conta de uma economia que até pouco tempo não permitia planejamento – durante muito tempo tivemos uma economia inflacionária e fechada, sem exportação. E viver num mundo globalizado mas num país que não permite planejamento foi colocado por ele como uma “esquizofrenia”. Paulo ilustrou sua fala com um exemplo super impactante: nós somos um país tropical, exuberante, de verão e praia, e liquidamos as coleções de verão em janeiro e fevereiro, quando essas coleções mais deveriam ser valorizadas – e no fim o PB ainda chamou essa história de “retrato de ociosidade intelectual”.
A platéia participou com perguntas e Paulo respondeu a um estudante de administração sobre as datas do SPFW e sua relação com os prazos de produção e entrega das marcas. Diz que a indústria têxtil é desconectada da indústria de confecção e que as nossas formas de comércio ainda têm dinâmica atrasada, e que a pronta entrega é uma invenção brasileira (por conta da economia inflacionária – “faço hoje pra vender amanhã”). e admitiu que ainda pensa se desfiles são feitos para compradores ou para a imprensa, completando seu raciocínio com o exemplo dos desfiles feitos em Paris: na ocasião dos desfiles as coleçoes já foram quase totalmente vendidas e o show acontece para a imprensa difundir essas coleções para o consumidor final – o negócio é feito bem antes!
Paulo falou muitas muitas vezes que “ninguém vai resolver o problema da moda brasileira sozinho” e terminou dizendo que moda não é arte, mesmo tendo como referência muitas manifestações culturais: “moda tem que vender”.








