RAÍZES PRA VOAR

ALÉM DO ESPELHO
por Clara Prado

“Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior de nosso ser e de nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. É disso que se trata, afinal, e é o que essas pistas nos ajudam a procurar, dentro de nós mesmos.”
Joseph Campbell, O Poder do Mito

 

A morte nos faz olhar diferente para a vida. É assim. Não que vivamos vidas vazias, sem sentido, no piloto automático das obrigações cotidianas. Não acho que este discurso, tão anos 50, tão pós-guerra e pré-internet, seja o fator central de nossas angústias. Nunca estivemos tão conectados, e isso pode fazer um bem tremendo, pois amplia as possibilidades de estabelecimento de relações significativas, de diálogos, de provocações. Conectados não só no sentido das ferramentas, como também da capacidade que temos de nos ligar a causas e pessoas, de verdade, virtualmente. As tais novas subjetividades, de que tanto se fala. Claro que há espaços de isolamento, motivados por causas reais neste mundo das redes – mas, realmente, o niilismo e o dadaísmo tiveram seu momento. Sem cair na ingenuidade do otimismo sem fundamento, acredito mesmo que é uma maravilha o tanto de liberdade que temos na mão, e já falei disso por aqui.

Mas estou falando de outra coisa… estou falando de nossos laços de pertencimento num aspecto mais profundo, que a morte de alguém próximo nos faz vivenciar na carne: a ancestralidade e o ciclo da vida. Por mais que a gente construa condições no dia a dia para esquecê-la, ela (a morte) está lá, inexorável, e nos faz lembrar que o tempo passa, passa e somos herdeiros de muito, muito mais do que bens materiais. A experiência da vida é tão radical, tão condensada nestas horas. E, neste luto, amamos mais quem já amamos, gostamos mais das comidas que já gostamos, nos emocionamos mais com a beleza do que já admiramos.

E depois que os dias passam e os pensamentos se acalmam – porque não é possível sobreviver em tempestade permanente – retomamos a vida, aquela que já tinha sentido, com ainda mais amor.

Se estamos em busca do que é belo para nós, e não do que alguém disse que é o bonito da vez; de relações verdadeiras e éticas com todos e com o planeta; de fruição com a arte e comunhão com a natureza; de autoestima, amor e bem comum e não de consumo, consumo, consumo – voltaremos ao nosso cotidiano muito mais seguras e confiantes pra girar a roda da vida. O que deixaremos para o mundo?


*este texto é uma homenagem à minha querida Avó Lourdes, que faleceu dia 15 de agosto de 2013.

A coluna #alémdoespelho da Clara aqui no site convida a gente a “pensar além do que o dia a dia nos obriga” e assim também trabalhar autoestima — exercitando e experimentando através de conversas críticas e encontros com a arte nos nossos encontros culturais aqui em SP. Esse nosso programa bimestral já tem nova data pra rolar – agora em setembro! – clica pra saber mais e estar com a gente!

 

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