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  • Lembram dessa série de posts chamada “Lições de Profissão”? Um ano atrás a gente perguntou pra amigos de áreas diferentes do mundo da moda sobre suas profissões, suas trajetórias, de como é o dia-a-dia e mais: a conversa rolou com uma editora de revista, uma jornalista/fazedora de evento, uma stylists, um editor de site e um super produtor de moda. Agora a gente resolveu “investigar” mais gente, mais possibilidades, e quem se interessar pode ter, por esses posts, uma visão geral – e realista! – de como as coisas no mundinho funcionam.

    Quem retoma a série com a gente é o Marcelo Gomes. Ele é fotógrafo e conhece bem o trabalho com moda, já trabalhou com as revistas mais legais daqui do Brasil e de fora (tipo a Key, a FfwMag, a Nylon, a Dazed and Confused, a Vice e maaais) e seu segundo livro acabou de ser elogiado na Bazaar! A qualidade maior do Marcelo, no entanto, não é a experiência mas a sensibilidade – tem que conhecer o trabalho dele pra entender que essa é uma fotografia especial (mais aqui). E vê só como ele tem o pé no chão!

    marcelo_gomes

    COMO VOCÊ COMEÇOU?
    Comecei a brincar de fotografar em 2004, 2005.  Trabalhava numa revista em Nova Iorque chamada Index, e fotografia era uma parte muito importante da revista e muito fotógrafos notáveis trabalhavam com a gente, entre eles: Wolfgang Tillmans, Juergen Teller, Mark Borthwick, Ryan Mcginley, Terry Richardson, Takashi Homma, e vários outros. A revista tinha uma diagramação muito simples, e um conceito também relativamente simples. Cada edição (a revista saía 5 vezes ao ano) consistia de 6 entrevistas longas (mais ou menos 6- 8 páginas) com personalidades das mais diversas.  Na mesma edição você podia encontrar entrevistas (sempre em formato “pingue-pongue”) com o Morrissey,Helmut Newton, e Howard Zinn (um grande historiador americano)  e por causa da simplicidade da diagramação a fotografia se sobressaía bastante, tanto pelo tamanho da revista quanto pela liberdade dada aos artistas que colaboravam.  Fiz algumas fotos pra Index ainda sem saber direito o que fazia, e depois saí de lá pra ser assistente de fotografia. Fui assistente por dois anos, quando em dezembro de 2007 decidi que ia fotografar profissionalmente.

    O QUE ESTUDOU E O QUE ACHA MAIS IMPORTANTE ESTUDAR?
    Eu sou formado em Ciências Políticas pela University of Iowa.  De certa forma acho bom não ter feito artes plásticas (até mesmo porque na época não passava pela minha cabeça fazer algo do tipo), gostei muito do meu curso. Achava que seria um diplomata. Acho muito difícil dar este tipo de conselho porque cada pessoa funciona de uma maneira. Sei que aos 17 anos de idade (que foi quando entrei na faculdade) eu não era adulto, nem estava preparado pra tomar decisões reais em relação ao que seria da minha vida. Era muito imaturo e no meu caso, acho que precisava daqueles 4 anos mais para amadurecer do que para escolher o que fazer profissionalmente. Mas acho que é importante se aprofundar em alguma coisa, pode ser Botânica, Direito, ou Letras, com tanto que você nestes 4 -5 anos aprenda a pensar, e desenvolva sua capacidade analítica.

    QUANTO TEMPO LEVOU PRA ‘DAR CERTO’ (FINANCEIRAMENTE)?
    Isto também é bastante relativo, tem meses que eu acho que dei super certo financeiramente (ha!) e tem outros que nem tanto. O que provavelmente significa que ainda não posso dizer que sou monetariamente solúvel, líquido, saudável. Mas tenho esperança que isto se isto se resolva em breve.

    O QUE MAIS AMA NO TRABALHO COM MODA?
    Eu gosto muito de roupas, cores, e formas mas não diria que gosto de “moda” como a maioria compreende o termo. Tendência, cor da estação, comprimento da temporada, todas estas coisas são extremamente maçantes, na minha opinião. Tenho muito gosto por fotografar peças de acabamento e caimento perfeito, tecidos que nunca de fato luxosos, assim como gosto de fotografar boas idéias de estilistas jovens. Sou muito interessado pela parte de engenharia de moda, que é encarregada de fazer peças extremamente bem acabadas em quantidades médias-grandes, acho o processo fascinante e acredito que as pessoas que conseguem viabilizar em séries numerosas peças extremamente complexas såo verdadeiros gênios (assim como os estilistas que criam estas peças-piloto). Esta parte técnica e de real artesanato é pouco valorizada no Brasil, o que é chato.

    O QUE MENOS CURTE NO TRABALHO COM MODA?
    Acho que respondi acima. Mas no sobre o que eu faço não tenho muito do que reclamar, existem trabalhos mais legais que outros, e é assim mesmo, é como quem vai pro escritório, ou é jornalista, ou farmacêutico, existem dias bons e dias ruins, pessoas interessantes e pessoas desagradáveis em qualquer profissão, e quem trabalha com moda (apesar da maioria achar o contrário) não faz algo mais perto dos céus que qualquer outra pessoa. Como quem vê as revistas de vez em quando esta parte da digestão, o mastigar da moda não me interessa e nem me agrada, e acho que há um certo charlatanismo em apontar tendências que ou já existem ou se unem a 128 outras “tendências”.  Há uma certa demagogia no jornalismo de moda (no que toca a triagem pós semanas de moda) que sempre passa desapercebida das pessoas.

    QUE APRENDIZADO PODE DIVIDIR, EM FORMA DE CONSELHO, COM QUEM QUER SE AVENTURAR PELO MUNDO PROFISSIONAL DA MODA?
    Seja você mesmo, mas nem sempre diga o que você pensa, por mais sincero que seja. Seja educado, interessado, e tenha paciência. E se você realmente quer ser bom no que você faz (seja você um stylist, fotógrafo, estilista, maquiador, alfaiate…) não seja só o que você faz. Não se defina pela sua profissão. As pessoas acham que trabalhar com moda é algum tipo de chamado divino (e não é).  Se você se encontra na festa de natal da família da sua namorada e o primo fazendeiro dela só fala de bois e vacas você se acha no direito de achar um porre, mas por que é aceitável que o seu único assunto seja sempre moda (ou a vida das outras pessoas que trabalham com moda)?

    Na quinta-feira tem mais Lições de Profissão com Dani Valadão, que comanda o departamento de marketing da Gant aqui no Brasil. Uhú!


  • Melvin Sokolsky é fotógrafo ativo há mais de 50 anos no mercado editorial e publicitário americano. Começou a fotografar ainda criança, usando uma câmera artesanal e sem nenhuma instrução formal – apenas com instinto e emoção (o essencial ele já tinha, né?). Durante a década de 60 produziu sua série de fotos mais famosa até hoje, chamada “Bolha”, em que modelos impecavelmente vestidas flutuam sobre Paris. As fotos faziam parte de um editorial para a Harper’s Bazaar – Sokolsky também fotografou moda para a Vogue, para o New York Times e mais.

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    Melvin Sokolsky ficou conhecido por seu trabalho com moda, mas três quartos de tudo que produziu até hoje é publicidade. Não por isso suas imagens são menos impressionantes: o fotógrafo declarou que “ressentia a atitude que separa editorial de publicidade”, enquanto sempre sentiu que deveria sempre fotografar/criar imagens da mesma forma, com a mesma paixão. Citando Albert Einstein (“imaginação é mais importante que conhecimento”), ele foi além: “sonhos são as sementes de imaginação e insight que levam à inovação que transcende as ferramentas.”

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    Assim ele quis simplificar seu pensamento e concluiu que “a imaginação é a arte e o conhecimento é apenas a ferramenta”. Independente do equipamento que se usa pra criar imagens, independente das condições e tecnologias disponíveis. E esse não é um ótimo pensamento pra se aplicar à moda? É bacana ler, conhecer, estudar – ferramentas de construção de todo look bom! – mas imaginar, sonhar, buscar idéias originais é a arte que move essa construção! ;-)


  • Quando a gente pergunta pra especialistas “o que fazer pra sair linda na foto” as respostas são: prestar atenção na postura, procurar uma pose confortável em frente ao espelho pra reproduzir na hora do clique, projetar o queixo um pouquito pra frente e pra achar um jeito de transparecer personalidade em frente à câmera. Tuso bem, tudo bem, tamos levando isso em consideração… e pensamos que dá pra pensar em mais coisas (além da gente mesma!) pra garantir uma foto bacana – seja pra uma entrevista, pra um trabalho qualquer ou só pra lembrar de um momento bom!

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    Vale pensar no ambiente em que a foto vai ser feita: é mais escuro, é mais claro, tem luz natural, tem lâmpadas brancas ou amarelas? Sabe que é bom se maquiar na luz equivalente pra não ter surpresa, né? E aí, se é uma foto posada, pensa no fundo: é mais claro ou mais escuro? Mais colorido ou mais neutro? Porque né, quanto mais contraste melhor – mais destaque pra personagem da foto e não pro ambiente! Tipo se o fundo da foto é claro e colorido, vale usar uma roupa escura e mais neutra, sabe como? E se a foto tem mais gente – tipo uma dupla, como aqui na Oficina! – vale combinar antes o que todo mundo vai usar: pra não repetir cores, mas pelo contrário, pra escolher cores complementares e criar uma sensação boa pra todo mundo que vir a foto depois, pronta!

    Estampas e padronagens e texturas são super importantes na vida real, mas na foto nem sempre é assim. De regra, cores são o elemento mais impactante de uma imagem e esses outros elementos acabam sendo secundários (mas nem por isso menos importantes). É legal prestar atenção em tamanhos de estampas pra que coisas muito pequeninas não pareçam sujeira depois (pode acontecer!). Atenção também pra texturas que podem acrescentar uns volumes malucos: na vida real a gente é 3d, na imagem tudo fica chapado, né?

    E aí é só sorrir!


  • No Pense Moda os fotógrafos e os stylists participantes de mesas de debates tocaram num assunto tenso: a coisa das referências literais na hora de se trabalhar imagens de moda aqui no BR, seja em revistas, seja em catálogos e afins. A coisa toda parece meio cíclica: fotógrafos e stylists reclamam que são sempre chamados pra repetir referências literalmente, dizem que os editores mostram editoriais/imagens feitos por profissionais incríveis fora do país e pedem pra reproduzir igualzinho. E falam ainda que não têm tanta liberdade pra propor coisas novas porque os editores dizem que os leitores “não estão preparados” ou que não vão entender.

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    Vogue Paris x Vogue Brasil: o editorial-matriz saiu primeiro na revista de lá de fora e foi republicado aqui nessa edição da Vogue BR – na mesma edição em que a versão brasileira saiu. Oooops.

    Não tinham editores lá no Pense Moda na hora pra rebater ou pra debater, então a gente ouviu só um lado dessa história. Porque a gente imagina que editores poderiam reclamar que quem não traz nada novo são eles (fotógrafos e stylists!), ou que eles topam fazer o que é pedido sem reclamar ou sugerir outro caminho – não dá pra saber, né? Mas a gente imagina.

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    Vogue América x Vogue Brasil: refletidas no vidro, com canudinho e tudo

    O fotógrafo Bob Wolfenson chegou a dizer que é meio obrigação de editores e clientes em geral pedirem referências novas e frescas. Ele disse que é preciso que se produza imagens novas e inspiradoras até pra “educar” o leitor/consumidor, pra que cada vez mais todo mundo compreenda e saiba “ler” imagens de moda mais elaboradas, mais sofisticadas e moderninhas. A gente também acha, e também quer ser ‘educada’! Porque repetição faz com que o olho se acostume e se acomode, e a gente vai mesmo perdendo o jeito de decifrar códigos e elementos das imagens de moda que vemos – especialmente quando a Vogue repete tanto assim, ó:

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    Vogue América x Vogue Brasil – e aqui a gente tem um ‘plus a mais’: tem na revista dizendo que “o editor de moda Giovanni Frasson foi quem decidiu que um jardim tropical seria perfeito para destacar as cores do editorial”. A gente acha que quem decidiu isso foi o casal Inez e Vinoodh que fotografou o editorial-matriz na Vogue América, não foi não? E olha que a gente a-do-ra tudo do Giovanni!


curtimos

ideias complementares às da Oficina