O Rio Summer acabou de acontecer e o que mais se ouviu (e se vendeu) por lá foi o tal do ‘lifestyle’ brasileiro. Aliás, não só no Rio Summer como na moda de uma maneira geral, o ‘estilo de vida’ é palavra de ordem há algum tempo. Exatamente por isso o Pense Moda chamou o sociólogo e professor Álvaro Arthur de Castro para discutir sobre o assunto. “Estilo de vida são valores e princípios em exercício”, explicou Álvaro. São os valores individuais que regem a vida das pessoas. “Estilo de vida não é produto – é serviço”. Bom, se a gente pensar que o motor que gira a indústria da moda é o desejo e que ‘estilo de vida’ é, exatamente, a promessa deste desejo, então conseguiremos entender a importância e a `febre` da expressão.
Por outro lado, como falou Álvaro, se ‘estilo de vida’ não é produto, este, o produto, é o resultado de um processo de síntese. Olha só: criações devem, necessariamente, ter uma mensagem, uma visão de mundo (ex.: Chanel estava tão imersa à realidade em que vivia que lançou o tailleur justamente na época em que as mulheres foram chamadas ao trabalho, criando, assim, o 1º ‘uniforme social’ feminino e fazendo-se famosa por isso). E se ‘estilo de vida’ é princípio em exercício, para que o tão discutido ‘lifestyle’ brasileiro se construa também internacionalmente, devemos desenvolvê-lo de acordo com nossos valores e crenças, lembrando (SEMPRE!) que somos nós quem devemos nos adaptar ao mundo e não ele a nós – nosso ‘estilo de vida’ deve ser o recheio de uma linguagem globalizada (rá).
Por fim, um pensamento-ensinamento fundamental (e nada fraco): não é a marca que produz valor para o cliente – é o cliente que produz valor para si ao usar o produto (e, consequentemente, ao consumir o ‘estilo de vida’) de determinada marca.
Pra estudar e pensar. Pensar muito.
Essa palestra aconteceu onte de tarde. E esse foi mais um texto da Tati Rodrigues, bem ótema, não?!??
“A questão da identidade brasileira é colocada pelos criadores e pensadores de moda, mas não se reflete nas ruas, que já têm um estilo colocado, efetivo”. Foi assim que Alcino Leite Neto, editor de Moda da Folha de São Paulo, encerrou (E AO MESMO TEMPO CRITICOU!) o tema debatido por Gloria Kalil (consultora e jornalista de moda), Heitor Dhália (cineasta), Marcio Kogan (arquiteto) e Valdick Jatobá (diretor do Banco Privado Português e colecionador de arte) sobre a questão da identidade brasileira nas expressões artísticas.
Glória Kalil (chic, inteligente, ponderada) discutiu a questão com pontos de vista bem interessantes: ser brasileiro pode ser uma condição tanto vantajosa quanto restritiva, pois se nos beneficiamos da simpática imagem externa de que somos livres, acolhedores e sensuais, ao mesmo tempo estamos fadados a uma estética de verão eterno (não é?!). O produto brasileiro, analisado individualmente, não carrega tanta força – é o estilo de vida de nosso país o que realmente vende (aquela velha história do samba, carnaval e futebol). No Brasil, como ressaltou Gloria, não existem marcas de moda realmente representativas (as que mais se aproximam disso são Havaianas e H.Stern).
Gente, sendo assim, em que a moda no Brasil está, de fato, investindo?
Belgas e japoneses (países com estilistas super reconhecidos no mercado de moda internacional) desenvolveram uma estrutura com seus respectivos governos e levaram seus estilistas para desfilar no alto circuito da moda (Paris, Milão e Nova Iorque, por exemplo). Já o Brasil prioriza semanas de moda regionais em vez de seus criadores. Não que elas não sejam importantes, mas como pretende um país ser reconhecido por sua identidade na criação em moda se suas marcas e seus criadores não conseguem desenvolver uma estrutura mínima de planejamento, produção e distribuição? Assim como Heitor Dhália pontuou o problema para o cinema brasileiro, nossos produtos em moda (e nossos filmes, e nossa música, e nossa literatura) necessitam ultrapassar a fronteira nacional para que possam estabelecer um ‘debate’ com o mercado mundial. Um criador deve manifestar suas vontades em concordância com o desejo e a expectativa do público consumidor, afinal ninguém faz um filme, escreve um livro, compõe uma música ou costura uma roupa somente para si, néam?!??
Claro que o assunto é abrangente e não conseguiu se esgotar com esta discussão. Mas o debate foi ótimo para pensarmos sobre como estamos conduzindo nossa identidade e, consequentemente nossa indústria de moda. Ginga e potencial criativo nós temos de sobra, já sabemos. Não seria a hora, então, de reconsiderarmos as nossas questões para que, enfim, possamos amadurecer e vestir o mundo com a nossa roupagem ?
Já está mais do que na hora, não é mesmo?!
O texto é da linda e talentosa Tati Rodrigues, que tá assistindo a tudo do Pense Moda com a gente – e que vai escrever aqui no Oficina durante o evento – legal, não?!?? Os outros videozitos que a gente fez (juntas!) nessa palestra tão disponíveis no nosso canal no YouTuba, quer ver? =)
A gente achou que a inteção é, no fim de tudo, bem boa. Que fazer esforço pra que mais gente da imprensa e mais compradores conheçam o que se produz aqui é vantajoso pra todo o meio, não só pra quem participa do evento. Se um cresce e se desenvolve, todo mundo ganha (de algum jeito). O Sartorialist em si tava aqui fotografando o povo – e se divertindo horrores, aparentemente! – e a Alexandra Farah fez entrevistinha ótema com ele: top ponto alto do evento, pra gente aqui de longe! O site tá cheio de fotos do Rio, sabia?
Milene Chaves, editora do Chic e amiga querida, fez um texto dizendo que não foi só o Scott Schumann/Sartorialist que se divertiu, mas que todo mundo fez mointa festa – e em compensação, poucos negócios. Diz que o povo vendeu pouquinho, e que os compradores não queriam tanto saber de alfaiataria e roupa muito elaborada feita por aqui, mas tavam mesmo de olho nos biquínis. Gente importante, tipo a Hillary Alexander que escreve projornal inglês Telegraph, Tim Blanks que durante mil anos apresentou o programa Fashion File (e hoje faz o que mesmo? a revista flare?), Nina Garcia que saiu da Elle pra ser editora da Marie Claire (tudo lá nos EU), Hamish Bowles que trabalha na Vogue América com Anna Wintour e mais. Tá bom pra você de celebridades fashion?
A gente amou o desfile da Jo de Mer, marca que faz modelagens super confortáveis-elegantes pra tudo de praia (e comportadinhas também). No About Fashion tem cobertura completona feita pelo Luigi, inclusive do desfile da 284, marca nova que se propõe a ser um fast-fashion bacana aqui no BR, tipo Top Shop (mointa gente torceu o nariz pra esse desfile). Sabe mais? Vai ter um desfile-resumo do que se viu no Rio Summer aqui em SP, no dia 25 de novembro, lá no shopping Cidade Jardim. Quer ir?!?? A gente vai, torcendo pra que esse evento dê resultado bom pras marcas que participam – porque, de novo, todo mundo ganha. E porque é melhor ser alegre que ser triste.
Tem visões complementares desse post na coluna da Alexandra Farah no IG e no Vodca Barata. A Ivi (do Vodca) diz que “se teve lifestyle vendido no Rio Summer foi o lifestyle carioca, porque em caruaru a vida não é assim, assim como em 99% do resto do país”; Ale diz que “o evento usa dos elementos do carnaval – desfile de corpos, festas, chopp, samba, suor e a paisagem da cidade marvailhosa – para vender um Brasil vestido segundo a seleção da loja mais aristocrática e globalizada do pais, a Daslu” – e esses dois textos são leituras importantes pra se refletir sobre o Rio Summer. Recomendadíssimos.