A LIÇÃO DO PIERRE CARDIN

Sempre que a gente comenta que gosta de moda, tem alguém que torce o nariz e já coloca a nossa pessoa no “montinho dos fúteis”. Esse tipo de gente tem a ideia fixa que moda nada mais é do que comprar roupas, falar sobre tendências e o que ‘tá usando’, e ter uma visão meio “Patricinhas de Beverly Hills” da vida.

Acontece que essas pessoas cheias de preconceitos talvez não entendam lá muita coisa. Elas se esquecem, ou não sabem mesmo, por exemplo, que moda é uma das maneiras mais legais de comunicar quem somos sem abrirmos a boca. Jogue a primeira pedra quem nunca, nunquinha na vida, olhou para alguém pela primeira vez e teve um conceito de sua personalidade só pela sua aparência. A gente pode acertar ou errar, mas o que a pessoa escolhe para usar aquele dia – e em todos os outros – sempre diz alguma coisa.

E olhem só, na última semana de abril o Pierre Cardin, senhorzinho dos mais legais, e dos mais idosos (ele tem 88 anos!) dessa velha guarda da moda, esteve em São Paulo para a abertura de uma exposição em sua homenagem, e numa coletiva para imprensa, ele disse que a moda não é útil (como comida, por exemplo), mas é socialmente necessária, a medida que nos diferencia e nos dá identidade (e também nos protege do sol, da chuva, da vergonha de andar aí sem roupa, etc).

Imagens da exposição “Aware: Art Fashion Identity”

O exemplo dele foi bem bom, de que se a gente encontrasse uma mulher completamente nua em um deserto, tipo uma múmia ou algo assim, a gente não poderia descobrir quase nada sobre ela. Mas, se ela estivesse usando qualquer tipo de vestimenta e acessório, seria possível fazer praticamente uma radiografia da vida que ela levava. “Se você põe roupa, você pode dizer da onde ela é, sua personalidade, seu caráter. Se é rica ou se é pobre, se é sensual, glamurosa, recatada”, foi o que o vovô Cardin falou para sua platéia.

Até fevereiro desde ano esteve em cartaz uma exposição em Londres chamada “Aware: Art Fashion Identity”, em que artistas e designers usavam a roupa como mecanismo para comunicar e revelar elementos da nossa identidade. E aí a mostra (recheada de novos nomes da moda) era divida em categorias que englobavam o contar histórias, a construção da identidade, performance e o pertencer e confrontar uma cultura – no caso a valorização da individualidade é o distanciamento/confronto do grupo. Só na divisão fica claro o tanto que uma “simples” roupa faz pelos indivíduos.

Sabe-se também que essa imagem pode ser facilmente manipulada, e uma pessoa toda fogosa pode ter seus dias de Noviça Rebelde, ou alguém de classe social abastada pode ser facilmente vista como alguém que não tem dinheiro sobrando para gastar com roupas.

A grande sacada é ter conhecimento para usar isso ao nosso favor, e sair de casa todo dia com confiança no modelo que a gente tá carregando. O que não vale é fazer as pessoas entenderem tudo ao contrário e depois usar aquela desculpa de “Ai professor, eu não sabia!”.