A princesa e a rainha

Imagine que você é a figurinista mais poderosa de Hollywood, ganhou mais Oscars do que qualquer outra mulher na história da Academia e vai vestir ninguém menos do que Audrey Hepburn em um filme. A maioria das pessoas do mundo nessa situação pensaria: “é hoje que eu posso escolher o que eu quiser e tudo vai ficar incrível”! Já Edith Head, figurinista que esteve nessa situação durante o filme "A Princesa e o Plebeu", pensou: “Meu Deus, o que faço para consertar os defeitos terríveis dessa moça?”.

Audrey Hepburn tinha defeitos para disfarçar?

Sim! A moça de defeitos terríveis é a mesma Audrey que a gente idolatra, mas que Edith via como um conjunto pouco gracioso de pescoço comprido, seios minúsculos, quadris estreitos e pés gigantescos.

O figurino de "A Princesa e o Plebeu", é cheio de truques para disfarçar o que Edith via como defeito. O maior exemplo são os lencinhos e laçarotes que Audrey usa o tempo todo no pescoço para cobrir o colo.

Uma opinião é apenas uma opinião, mesmo que ela parta de um profissional

A própria Audrey não parecia concordar com o diagnóstico da figurinista sobre seu corpo, afinal, não levou nenhuma das intervenções de Edith para a vida depois de fazer o filme. Ela não apenas não tinha vergonha de seus pés grandes como fazia questão de comprar sapatos maiores para ficar mais confortável!

Quem está certa? Quem está errada? Na nossa opinião, as duas fizeram exatamente o que era esperado delas. Edith fez um figurino lindo para o filme,  justamente o que ela queria. Audrey foi linda a vida toda. As duas estão certíssimas!

Aceite trabalhar com o casting que a vida te deu

O caso do figurino de "A Princesa e o Plebeu" funciona como uma “prova material” de que essa história de defeito é muito pessoal. Para uma figurinista acostumada com um padrão mais voluptuoso, que vestia Grace Kelly e Elizabeth Taylor, Audrey parecia muito mirradinha. O que importa é que em vez de se emburrar com a atriz, Edith deu um jeito muito bem dado de fazer roupas inesquecíveis para uma moça que não correspondia a seu ideal de beleza. Como figurinistas da nossa própria vida real, é importante que a gente aceite trabalhar com o “casting” que a genética nos deu em vez de apenas falar mal dele.

A saia justa entre Audrey e Edith foi tão bem contornada pela figurinista que elas chegaram a trabalhar em outros filmes, como Cinderela em Paris, e Audrey adorava as roupas!

Edith é exemplo profissional e de vida

Em seus 60 anos de carreira, Edith foi, além de talentosa, muito esperta para conseguir chegar onde queria. Quando começou a trabalhar no cinema, ela fazia figurinos de jovens atrizes sem grande prestígio. A regra do estúdio era de que só as estrelas tinham direito de opinar no figurino, mas Edith fazia questão de ouvir as meninas mais novas e de levar as opiniões delas em consideração. Quando essas meninas se transformavam em estrelas, lembravam da figurinista legal e pediam que ela trabalhasse em seus filmes!

Ela tratava as atrizes com tanta atenção que cada uma delas se considerava a favorita e... Retribuia o favoritismo! A figurinista sabia que roupa não foi feita para ficar no cabide e que para se dar bem na moda era preciso saber lidar com as pessoas.

Edith também nunca recusou um osso duro. Ela começou a ganhar mais espaço na Paramount quando passou a vestir Clara Bow, uma grande estrela da época que tinha um gosto meio complicado para roupas. Os outros figurinistas não tinham paciência, diziam apenas que Clara tinha mau gosto e ponto. Já Edith tentou conciliar os gostos da atriz com o que ela mesma pensava ser adequado. O uniforme que Clara usa no filme "Asas" ficou conhecido por mostrar a genialidade de Edith em salvar um caso que profissionais mais experientes que ela davam por perdido.

Como se não fosse suficiente lidar com tantos egos e complicações, os figurinistas da época (e os de hoje também!) precisavam lidar com o orçamento. Se engana quem pensa que o dinheiro para roupas é liberado. Para contornar mais esse obstáculo, Edith reaproveitava ternos de um filme no outro, desmontava roupas e costurava novas com o mesmo tecido ou reformava vestidos trocando apenas os punhos e colarinhos. Quer exemplo de vida melhor que esse?

*Juliana Cunha é jornalista e colaboradora do blog da Oficina de Estilo, que sorte a nossa :) ce pode ler outros textos dela pra Oficina aqui -- e os textos autorais dela no Já Matei Por Menos, ó!