A TEIA, A REDE E A MULTIDÃO

ALÉM DO ESPELHOPor Clara Prado

“Nos dias certos, nos dias exteriores da minha vida, Nos meus dias de perfeita lucidez natural, Sinto sem sentir que sinto, Vejo sem saber que vejo, E nunca o Universo é tão real como então, Nunca o Universo está (não é perto ou longe de mim, Mas) tão sublimemente não-meu.”

Fernando Pessoa – Alberto Caeiro

Este espaço aqui é um daqueles jardins de inverno, sabe? Daqueles que todos nós já vimos uma vez na vida e ficamos imaginando um dia ter em casa. Daqueles construídos como um perfeito equilíbrio entre a expressão da natureza e a composição estética que mais admiramos. Essa imagem me vem porque #alemdoespelho foi feito pra ser um espaço de encontro e reflexão sobre questões importantes, e só. (Eu estava muito angustiada com a demora em conseguir postar outro texto, mas conforme fui concebendo este que agora escrevo percebi que não havia a menor necessidade de impor o tempo e as exigências da produtividade neste espaço aqui – aqui não!!! – e esta suposta demora talvez tenha se transformado em uma reflexão muito mais interessante.)

No último encontro #alemdoespelho o tema foi o nosso corpo, mas não a nossa aparência: falamos de sentidos e percepções. A singeleza e a potência das obras do Olafur Eliasson nos fizeram experimentar o que parece óbvio: nosso corpo – onde está “instalado” nosso olhar – é um ponto de vista sobre o mundo. E daí, no bate papo entre participantes que sempre segue nossos 'passeios', pudemos nos conectar pelos relatos da experiência humana mais profunda, de Fernando Pessoa a Heliópolis, da África à física quântica, da cozinha ao mundo corporativo. Tudo aquilo ali era igualmente importante para cada uma de nós e eu tive a certeza de que este sistema de valores que está posto na nossa sociedade “não nos representa”.

Não nos representa porque já estamos fazendo diferente, sentindo diferente, construindo relações diferentes e criando filhos com valores diferentes. Esse mês passou e os acontecimentos nas ruas de São Paulo me fizeram ver que aquilo que conversamos com toda delicadeza no nosso #alemdoespelho está pulsando e aparecendo de diversas formas. Manifestação – uma ideia, uma aspiração, um desejo que ganha corpo; muito mais do que protesto – alguém ainda acha que a questão são os 20 centavos?

Não se trata aqui de discutir vandalismo e repressão, embora essa questão seja importantíssima. Trata-se de perceber que estamos em uma luta muito maior e que, se estivermos comprometidos com o nosso tempo, estamos todos envolvidos nela ativamente. E se não estivermos comprometidos com nosso tempo, estamos envolvidos no processo de qualquer maneira, mas nos deixando levar, simplesmente.

É uma nova ecologia das ideias, uma mudança de paradigma que começou a ser colocada em livros já no início da década de 90, mas que agora está saindo do campo teórico e ganhando materialidade. Será que estou sendo muito otimista e forçando a barra, sendo ingênua? Pode ser, mas não consigo parar de pensar que nossas angústias e a vontade de fazer diferente, seja na maneira como organizamos o funcionamento de nossas casas, seja na maneira de pensar políticas públicas, não estão convergindo porque estão absolutamente conectadas! O que vocês acham? 

“O paradigma que está agora retrocedendo dominou a nossa cultura por várias centenas
de anos, durante as quais modelou nossa moderna sociedade ocidental e influenciou significativamente o restante do mundo. Esse paradigma consiste em várias ideias e valores entrincheirados, entre os quais a visão do universo como um sistema mecânico composto de blocos de construção elementares, a visão do corpo humano como uma máquina, a visão da vida em sociedade como uma luta competitiva pela existência, a crença no progresso material ilimitado, a ser obtido por intermédio de crescimento econômico e tecnológico, e - por fim, mas não menos importante - a crença em que uma sociedade na qual a mulher é, por toda a parte, classificada em posição inferior à do homem é uma sociedade que segue uma lei básica da natureza. Todas essas suposições têm sido decisivamente desafiadas por eventos recentes. E, na verdade, está ocorrendo, na atualidade, uma revisão radical dessas suposições.”

Fritjof Capra, A Teia da Vida, 1996

A coluna #alémdoespelho da Clara aqui no site convida a gente a trabalhar a autoestima interagindo criticamente com o mundo em volta da gente (e não só com a gente mesma!) -- a idéia virou encontro cultural e agora faz parte da nossa programação bimestral. Clica pra conhecer mais do programa, anima e vem com a gente no próximo!  :)