ALÉM DO ESPELHO

DE NÓS, PONTES PARA O MUNDOpor Clara Prado

Substituir consumo por autoestima. É uma atitude, uma mudança de perspectiva. Um convite acalentador a agir a partir do que realmente importa. Então, descobrir o que realmente importa passa a ser o desafio – alcançar resultados adquire o tamanho de mais uma etapa do caminho. A vida corre mais feliz e mais significativa.

Mas e se encontrarmos o que realmente importa fora de nós? “No combate entre você e o mundo, prefira o mundo”, disse Kafka, o mesmo que se ocupou dos tortuosos becos de nossa imaginação. Há o infinito pra dentro, há o infinito pra fora.

Além do Espelho começa agora como um convite a explorarmos, a partir do que nos une no espaço da Oficina, questões relevantes que estão no infinito fora de nós. Porque acredito que não há como, efetivamente, habitar a própria pele e encontrar sentido para nosso cotidiano se não nos inserirmos no tamanho do mundo. Para provocar nosso olhar a alcançar através do espelho serão publicados periodicamente textos como uma coluna aqui no site e criadas outras propostas, outros encontros. Serão tratados temas urgentes da sociedade contemporânea, principalmente aqueles que tenham relação às nossas utopias, nossas tradições; ao universo feminino, às artes e à cultura.

Sabemos que Angelina Jolie é dedicada à questão dos refugiados na ONU, mas não sabemos que a média de solicitantes de refúgio no Estado de São Paulo quase quintuplicou de 2010 para 2012. Já ouvimos falar do caso de Belo Monte, mas nem imaginamos que há aldeias indígenas na Grande São Paulo que foram altamente impactadas pelas obras do Rodoanel. Ou sabemos? Se souberem, me contem. O infinito pra fora.

O que temos a ver com isso? O que consumimos, com quem nos relacionamos, o país em que vivemos, nosso quarteirão. Com o acesso à informação que temos, não é possível que não se juntem as pontas da violência e da desigualdade àquelas da falta de acesso à educação e à cultura! Se o consumo não é o nosso objetivo, que perspectiva original. Sejamos originais também no olhar ao outro e ao mundo. As possibilidades de manifestação são múltiplas, as causas são várias. Há outros caminhos além da filantropia e da militância, há muito tempo.

Por que na Oficina de Estilo? Porque acreditamos que, no projeto da Escola de Qualidade de Vida para Mulheres, tudo o que nos provoque uma reflexão sobre a nossa vida e nos empodere sobre as nossas escolhas é bem vindo. Porque pensamos juntas a partir de algum lugar. Porque existimos no mundo. Porque o mundo precisa que nós, mulheres, exerçamos nossa condição de agente.

“Ver os indivíduos como entidades que sentem e têm bem-estar é um reconhecimento importante, mas ficar só nisso implica uma concepção muito restrita da mulher como pessoa. Portanto, compreender o papel da condição de agente é essencial para reconhecer os indivíduos como pessoas responsáveis: nós não estamos apenas sãos ou enfermos, mas também agimos ou nos recusamos a agir, e podemos optar por agir de um modo e não de outro. Assim, nós – mulheres e homens – temos de assumir a responsabilidade por fazer ou não fazer as coisas. Isso faz diferença, e precisamos atentar para essa diferença.” (Amartya Sen, economista indiano, no texto A Condição de Agente das Mulheres e a Mudança Social, do livro Desenvolvimento como Liberdade – p. 221).

É um fio de navalha esse equilíbrio da busca de coerência e consistência no nosso cotidiano. Não há solução que baste para hoje ou prazo que a adie com segurança para o futuro. Este é o convite desta série Além do Espelho: vamos construir pontes para o mundo?

Tamos tão felizes com essa nova jornada colaborativa, "expansora" de horizontes em busca de qualidade de vida! Esse é o primeiro texto da Clara Prado aqui no nosso site, e em muitos outros a gente vai JUNTAS aprender a assumir nosso papel de agentes de transformação da realidade à nossa volta -- a partir da nossa própria existência mais consciente e crítica. Cuidando do infinito pra dentro mas também do infinito pra fora. Quem vamos? :)