CORPO: TERRITÓRIO DOS SENTIDOS

ALÉM DO ESPELHO por Clara Prado

Você que nos acompanha por aqui sabe que pensamos, falamos e trabalhamos com estilo e não apenas com imagem. Com identidade, com expressividade muito mais do que com algo estático que seja friamente construído em função de impressionar alguém ou quase construir um personagem de nós mesmos – quando estamos falando de estilo e autoestima, estamos falando de autoconhecimento colocado junto com o repertório que criamos a partir das afinidades e oportunidades que temos ao longo da vida. Os encontros estéticos e éticos que temos, por assim dizer.

Se o propósito do programa #alemdoespelho é refletir sobre nossas pontes para o mundo, hoje proponho que pensemos sobre o corpo a partir do olhar de dentro pra fora, e não de fora pra dentro. O que capturamos do mundo e como o fazemos, invertendo a perspectiva de pensar apenas em como nos mostramos para os outros. Claro que aqui na Oficina sempre consideramos o fora um reflexo do dentro, mas que tal pensar o corpo como matéria da subjetividade? Nós nos construímos a partir do nosso corpo, ou melhor, nós nos constituímos no nosso corpo: há o que já vem conosco geneticamente e há o que captamos do mundo por meio de nossos sentidos. Por isso o tema da percepção é tão importante: num mundo que nos estimula intencionalmente ao consumo, tão cheio de modelos a serem seguidos, temos que ver o quanto nossos sentidos estão sendo freneticamente provocados para desejar artificialmente algo. Para cumprir esse objetivo, é necessário manter nossa percepção aguçada e conectada com nosso coração – só assim poderemos fazer escolhas significativas.

Sair do automático e fazer um exercício de prestar atenção ao que nossos sentidos captam é dar-se tempo e espaço. Provar sabores diferentes, ouvir músicas de outros cantos, andar a pé e observar a cidade – esses momentos não apenas enriquecem nosso repertório cultural, mas principalmente ampliam a generosidade do nosso olhar para a diversidade. Ou seja, não é uma questão de acúmulo, de quantidade, mas sim uma questão de atitude e de delicadeza perante a vida. Contribuir para a construção de um mundo melhor passa pela relação que estabelecemos com o mundo como ele é, e isso se dá pelas sensações vivenciadas por um corpo que se move no dia a dia.

Claro que nossos sentidos são estimulados o tempo todo, mas proponho a vocês que façam esse exercício de maneira consciente e que conversem a respeito. Vamos criar situações para isso, buscar novos estímulos e abrir a percepção para detalhes do cotidiano pelos quais geralmente passamos em branco. Se experimentarem e puderem me contar como foi, vou adorar. E quem quiser fazer essa experiência coletivamente, reforço o convite para participar do Encontro Cultural #alemdoespelho com o tema percepção, que acontecerá no próximo sábado (25/5), às 11 horas da manhã, no Galpão da Galeria Fortes Vilaça, no bairro da Barra Funda em São Paulo. Na ocasião poderemos colocar nossos corpos e nossos sentidos em contato com a exposição Your Orbit Perspective, do artista contemporâneo Olafur Eliasson, e conversar sobre nossas impressões. Além de conhecer uma galeria de arte importante em um local central, mas pouco conhecido, da cidade de São Paulo.

Palavras do artista sobre a exposição

“Ao considerar algo que não é bem assimilável, temos que confiar na direção para a qual a nossa intuição nos leva; temos que estar abertos para ser atingidos pelo mundo. Este processo é bem cognitivo: ao imaginar o que você vê, você constitui a realidade. Ao fazer isso, você a toma para si como uma espécie de conhecimento emocional. Você lhe dá seu sentimento sentido. Sua perspectiva orbital [Your orbit perspective] direta e metaforicamente produz simultaneamente esse pensar e esse fazer. Não é que somente existe no mundo, mas “munda” o mundo. É uma máquina de realidade.”

Olafur Eliasson, 2013. Texto escrito especialmente para esta exposição. Disponível em http://www.fortesvilaca.com.br/ct-public/arqs/45167607.pdf.

Sobre o artista

Nascido na Dinamarca, em 1967, Olafur Eliasson atualmente vive e trabalha em Berlim e Copenhagen.

A prática de Olafur Eliasson é caracterizada por uma incessante exploração dos nossos modos de perceber. Uma de suas ideias centrais é equipar o espectador para examinar as condições de nossa percepção através das próprias experiências individuais, assim, reavaliando nossas noções do que é estar e agir no mundo; considerando as consequências de nossos sentimentos e ações, na arte e na sociedade de modo geral. Descrito como “configurações experimentais” pelo próprio artista, sua obra vai da fotografia à instalação, escultura e, mais recentemente, ao filme.

Com informações de http://www.fortesvilaca.com.br/artistas/olafur-eliasson