Decifra-me ou devoro-te

Houve uma época em que as pessoas se vestiam para chocar. E que as roupas realmente significavam quebras de paradigmas. Como quando as menininhas começaram a usar mini-saias, que a esperta da Mary Quant tinha feito, lá nos idos dos 60. O corpo quase todo costumava ser coberto, então quando a saia diminuiu uns centímetros, PÁ, foi um choque. O que realmente seduzia era descobrir os pedacinhos do corpo. Quem não se lembra de cena de filme que a menina sobe a saia longa na estrada, pra fazer os carros pararem?

E daí pra frente, com o aval de estilistas como Vivienne Westwood, Jean Paul Gaultier e Tom Ford (esse bem mais pra frente, nos anos 90), a moda passou a testar e extrapolar limites, aproveitando a liberação sexual que estava em andamento, a abusar de elementos de extrema sexualidade, e o culto ao corpo (alou supermodelos e geração saúde nas academias!) viu seus dias de glória. Na moda, as pessoas se libertavam de qualquer amarra que a sociedade já havia imposto.

Durante esse tempo todo fez-se de tudo, tirou-se pedaço de tudo, escancarou-se tudo. Tanto se fez, que hoje nada mais nos choca. Podemos gostar ou não, achar desnecessário, cafona ou ousado, mas já estamos acostumados. Não tem mais aquele mistério, não tem mais o gosto por perverter os corpos. Já se sabe tudo o que tem por debaixo dos panos, não é mesmo?

O corpo como um todo praticamente perdeu seu apelo _especialmente porque somos expostos a ele o tempo todo e em qualquer lugar_, então como seduzir? O jeito mais legal pode ser aposentar (ou deixar descansar bastante) a sedução descarada e fazer uso do inesperado, ou seja, ao invés de mostrar tudo de bandeja, deixar escapar um pedacinho aqui, outro acolá, ou escolher acessórios que carregam mensagens cheias de segundas intenções.

Essa tática de escolher apenas uma parte para seduzir é inclusive explicada por Freud, em uma teoria sobre fetichismo, que, de forma bastante simplificada, diz que nós transferimos para uma determinada parte do corpo (tipo pés) ou acessório (tipo salto-alto) a significação dos órgãos sexuais, e são eles que despertam desejo no outro.

Marc Jacobs parece compactuar dessa visão freudiana. Prova disso foi a última coleção que ele fez para a Louis Vuitton, com tema “fetiche”, em que as modelos usavam roupas que lembravam aquelas fantasias de sex-shop, de um jeito bem mais fino, com transparências localizadas, materiais que remetem ao universo sensual e modelagem mais atarracada, cada um de uma vez. Nos acessórios, botas altíssimas, máscaras de Mulher Gato aplicadas a quepes de ascensorista de elevador e mãozinhas segurando bolsas por meio de algemas. Olha quantos símbolos fetichistas juntos, com uma mensagem extremamente forte, mas focada nos detalhes, em partes específicas.

Levar para a vida uma tática “decifra-me ou devoro-te”, parece bastante certeiro para provocar pensamentos cheios de segundas intenções, ao invés do habitual “já vi tudo isso antes”, seguido de bocejos.