LIÇÕES DE PROFISSÃO COM CRISTIANE MESQUITA

Imagina estudar moda (e ensinaro que se aprende!) como profissão? A Cristiane Mesquita é pesquisadora, professora e consultora de projetos criativos e acadêmicos... em moda! Ela dá aulas, faz palestras, escreve colunas em revistas, trabalha com pesquisas no Programa de Mestrado da Universidade Anhembi Morumbi (!!!) e orienta projetos sobre arte, design e moda (claro) no Senac, na faculdade Santa Marcelina e na UEL do Paraná. Já fez mestrado, doutorado (!!!!!!). Já escreveu livros, já fez documentários e, de seis em seis meses ela promove o ZigueZague, evento paralelo ao SPFW (quer participar?!??) com oficinas, palestras e conversas inteligentes sobre esse nosso tema amado. Ah, como se fosse pouco, ela ainda tem a Ilha, uma coleção de acessórios cheios de poesia - clica pra conhecer que vale. Na entrevistinha ela deixa a gente participar um pouquinho desse universo de pensamentos, de lógica, de encantamento e de compreensão - de roupas e de gente! <3

COMO VOCÊ COMEÇOU? Comecei de um jeito "torto" que, mal sabia eu, iria reinventar o percurso previsto. Comecei quando me formei em Psicologia e fui trabalhar como vendedora, nas lojas Fiorucci, para sustentar minha formação, meu consultório, minha supervisão. Ufa! Começo não é fácil em nenhuma área, especialmente naquelas nas quais vc tem que ter clientes ou se dispor a ser funcionária pública de algum hospital... Enfim, descobri que sabia vender, e bem... Comecei a fazer dinheiro, saí da casa de meus pais, fiquei independente e, apesar de levar as duas atividades simultaneamente, o que me segurava era a loja. Ali descobri também que aqueles provadores e as conversas com clientes eram pura pesquisa de campo... As pessoas, quando compram roupas, geralmente estão tomadas por desejos, fantasias, obssessões, frustrações e diversas outras sensações que tem tudo a ver com suas histórias de vida, com suas relações com seu corpo e com sua imagem, com suas dores e com seus sonhos. Ali mesmo, naquela loja, uma dupla sinalização iria permear toda a minha trajetória. Se por um lado mudei meu rumo inicial e decidi fazer um curso de estilismo, também me certifiquei de que, em algum momento, me dedicaria a somar toda aquela experiência com um modo de ver o mundo conquistado nas Ciências Humanas, para pesquisar as interações entre corpos, sujeitos e roupas.

O QUE ESTUDOU E O QUE ACHA MAIS IMPORTANTE ESTUDAR? O curso universitário de Psicologia foi o que me abriu uma série de olhares para diversos modos de compreensão e abordagens para a moda. Mais adiante, meu mestrado e doutorado também seguiram essa linha, ainda que bastante enriquecidos por abordagens filosóficas. No entanto, entendo perfeitamente que alguém que queira trabalhar com moda decida estudar... huummm.... Moda...! Mas acredito que diversas vertentes de atuação nesse campo podem ser abertas por outros cursos, assim como Filosofia, Administração, Arquitetura, Cinema ou Artes Visuais. Isso depende da pegada que cada um quer dar para o trabalho na moda. De todo jeito, também acredito que qualquer curso, qualquer escolha deva sempre ser permeada por outros cursos e outras escolhas. Em outras palavras, que um estudante, especialmente aqueles das áreas criativas, deve se jogar em outros cursos paralelos e ter experiências em outras áreas. Isso é capaz de multiplicar perspectivas, enriquecer olhares, técnicas e atuações. Um curso universitário, um bando de gente faz. A singularidade de um percurso, cada um faz o seu.

QUANTO TEMPO LEVOU PRA 'DAR CERTO' (FINANCEIRAMENTE)? "Dar certo financeiramente"... No meu caso, acho difícil comentar. Vivemos num país onde a carreira acadêmica é travada e difícil. Corre-se atrás de bolsa para isso, bolsa para aquilo. Acredita-se que alguém que faz mestrado ou doutorado deve ainda viver na casa dos pais, pois a maioria das bolsas - quando existem - impedem o sujeito de trabalhar paralelamente, mas não cobre as despesas do dia a dia. E o cara tem que produzir, escrever, publicar, depois de dar horas e horas de aula para pagar as contas. Meus rendimentos mais consideráveis sempre vieram de free-las como jornalista, produtora, figurinista, de consultorias, de cursos extras e palestras, além de projetos ligados a ações culturais e isso é sempre flutuante, às vezes se ganha melhor, às vezes as vacas magras reaparecem. Posso dizer que é justamente minha flexibilidade de atuação e multiplicidade de formação que me rendem as ótimas oportunidades que meu anjo da guarda - super profissional - vem me concedendo. Talvez eu estivesse melhor financeiramente se tivesse me concentrado em outras linhas de ação, mas é fato que eu estava no lugar certo, na hora certa: SP, final dos anos 1990, o boom das escolas e cursos de moda. Lá se vão mais de dez anos construindo um lugar profissional múltiplo.

O QUE MAIS AMA NO TRABALHO COM MODA? Ops... acho que não sei responder. Mas posso dizer que, no caso específico do contato com alunos, é quando consigo ver que aquilo que compartilhamos, é capaz de gerar alguma transformação no modo de ver o mundo, na maneira de entender como sujeitos e roupas interagem e nas potencialidades que as roupas podem ter na vida das pessoas, para muito além do mercado.

O QUE MENOS CURTE NO TRABALHO COM MODA? Ter que lidar com algumas afetações exageradas, encantamentos exagerados, deslumbres exagerados... Hehehe, não me compreendam mal... Em outras palavras, o que menos curto é aquilo que a gente de vez em quando chama de "sem noção". E que pode acontecer de diferentes maneiras, em todas as áreas profissionais.

QUE APRENDIZADO PODE DIVIDIR, EM FORMA DE CONSELHO, COM QUEM QUER SE AVENTURAR PELO MUNDO PROFISSIONAL DA MODA? Na verdade, detesto conselhos, mas acho que esses são inofensivos... Vamos lá: 1- Não tente sanar suas inquietações. Aprenda a agenciá-las para sua criação, seja ela em design, imagem, escrita ou qualquer outra aventura. Mas cuidado com a ansiedade e a pressa. O tempo de amadurecimento é um senhor que deve ser respeitado. 2- Liberte-se de sua identidade, multiplique-se, misture-se. 3- Não se prenda a nenhum "mundinho". Todos eles, sem conexões, nos tornam pequenos demais.