LIÇÕES DE PROFISSÃO COM LETÍCIA TONIAZZO

A segunda entrevista da nossa série de mesmas-perguntas pra profissionais-diferentes do mundo da moda é essa daqui, com a Letícia Toniazzo. Ela é stylist de primeira hoje aqui no BR, cuida da imagem da Ellus 2nd Floor e de campanhas e editoriais lindos. Trabalho reconhecido e respeitado, mais um monte de opiniões pé-no-chão pra dividir aqui - com um super bom humor, olha só! lele480

COMO COMEÇOU? Comecei trabalhando em Porto Alegre fazendo produções pequenas para um estúdio de fotografia de lá. De vez em quando o fotógrafo chamava alguns stylists de sp para fazer trabalhos e numa dessas ele chamou o Dani Ueda que, por causa da verba do trabalho, não pode levar assistente. O fotógrafo então perguntou se eu poderia fazer assistência pra ele. Depois do trabalho ele me convidou para vir para SP e ficar um tempo trabalhando com ele. Vim para ficar dois meses e nunca mais voltei! Acabei trabalhando com ele durante 2 anos e depois fiz assistência para o Paulo Martinez por mais 2 anos e meio, 3 anos.

O QUE ESTUDOU E O QUE ACHA MAIS IMPORTANTE ESTUDAR? O que eu estudei?! Dá até vergonha de responder!!! Estudei mesmo arquitetura. Depois cursei um pouquinho de desenho industrial e aí decidi fazer algumas disciplinas de moda na universidade de Caxias do sul mesmo (sou de lá) mas não acabei. Fiz vestibular com 15 anos, comecei arquitetuta na federal do RS com 15, fiz 16 logo em seguida. Sempre quis estudar moda, desde pequena. Minha mãe sempre conta que a primeira frase que aprendi a falar inteira foi "não combina"!!!!! Sempre dizia que faria faculdade de fotografia ou de moda, mas minha mãe não queria me deixar morar em SP sozinha tão cedo. E no fim das contas, cá estou eu! Sei que não sou muito um exemplo, mas acho importante sim estudar moda, acho importante estudar artes, cinema, literatura, fotografia... Qualquer coisa que estimule a imaginação e que ajude na formação do gosto.

QUANTO TEMPO LEVOU PRA ‘DAR CERTO’ (FINANCEIRAMENTE)? No começo era super difícil, volta e meia precisava pedir dinheiro para os meus pais. Moro em são paulo há 8 anos, 5 deles trabalhando como assistente. Isso quer dizer que sozinha mesmo trabalho há mais ou menos 3 anos.E acho que de dois anos pra cá que tudo começou a dar certo de verdade (financeiramente falando).

O QUE MAIS AMA NO TRABALHO COM MODA? - A falta de rotina. - Conhecer um monte de gente legal o tempo todo. - Ter a oportunidade de colaborar com pessoas interessantes. - Estar sempre aprendendo. - Viajar para fotografar ou para fazer pesquisa. - Ter a desculpa para passar um dia inteiro assistindo a filmes incríveis e não ficar com peso na consciência. - Fazer desfiles, programar o desfile todo. - A adrenalina logo antes do desfile. - Ter a oportunidade de pensar em uma imagem desde o começo da coleção e participar do processo de criação junto com a equipe de estilo, como faço há 2 temporadas na 2nd floor. - Trabalhar com cores, pensar em combinações improváveis. - Pensar no personagem que vai para a passarela, que tipo de música ele/ela escutaria, que maquiagem e penteado usaria, se ele deveria ser mais desencanado ou mais cool. Gosto muito de ficar imaginando pequenos detalhes que formariam a personalidade daquele personagem (eu sei que é meio viagem, mas eu gosto)! Às vezes faço umas associações bestas, mas na minha cabeça sempre existe um porquê! Por exemplo, no último desfile da 2nd floor tinham alguns looks jeans com jeans. Eles estavam lá por um motivo muito claro pra mim: por causa do Roberto Carlos! Sim, eu sou fã, e, se pararmos para pensar um pouco, ele é o soldadinho de chumbo brasileiro!!!!

O QUE MENOS CURTE NO TRABALHO COM MODA? - Ter que ser muito organizada com as finanças para não passar perrengue - os acordos são feitos na base da confiança, então já levei alguns calotes. Às vezes também demoram muito para pagar determinados trabalhos. hoje por exemplo estava cobrando (pela milésima vez) por um trabalho que fiz em maio e que ainda não pagaram. Acho chato ficar cobrando, mas não é todo mundo que é certinho e paga em dia! - Quando em viagens o cliente acha que já está te fazendo um favor em te levar para um lugar legal e quer te colocar dividindo um quarto com o maquiador ou com o teu assitente. Poxa, ninguém entende que na verdade estão te tirando da tua casa, do conforto do teu lar, da tua cama fofinha! E que o mínimo que se pode fazer em uma situação dessas é te colocar tão confortável quanto se estivesses em casa. Inclusive para que isso reflita na tua disposição, no teu humor e consequentemente no teu trabalho. Claro que sei que existem situações que essas coisas são inevitáveis: já fui para lugares que tinham só uma pousada, poucos quartos e uma equipe grande. Mas quando tem infra estrutura não gosto muito não. - Quando viajo muito para trabalhar: geralmente em viagem temos que acordar muito cedo pois as fotos na sua maioria são externas, então, às vezes, tem que acordar 4, 4h30 da manhã para estar tudo certo, a modelo maquiada, todo mundo na locação na hora que o sol nascer. Há umas quatro semanas  viajei em uma segunda feira às 5 da manhã para a praia. Começamos a fotografar no mesmo dia. No dia seguinte acordamos às 5 horas para fotografar, fotografamos o dia inteiro, escolhemos as fotos, voltamos para São Paulo. Cheguei em casa 1 da manhã. Às 4 da manhã eu tinha que estar pronta porque uma van me pegaria para fazer outra viagem, desta vez para uma fazenda que ficava a 3 horas de SP, para fotografar outra campanha. Mais uma vez cheguei em casa quase meia noite e no dia seguinte eu tinha que ir para Guarulhos às 5h30 da manhã. - Quando era assistente odiava carregar sacolas pra cima e pra baixo, apesar de nunca ter me importado de fazer isso. - Odeio organizar devolução de produção depois de ter fotografado um editorial, bater romaneios, levar roupa na lavanderia, consertar sola de sapato. - Odeio fechar os créditos de uma matéria, ficar cobrando de meia em meia hora as assessorias de imprensa que demoram para mandar os preços. - Que mais será? Ah! Uma vez fui esquecida no meio da floresta da tijuca! Eu, o Vavá Ribeiro e o assistente dele! Ficamos das 6 da tarde até quase 10 da noite esperando o táxi que o cliente tinha ficado de mandar para buscar a gente. O problema é que não pega celular nem nada por lá! ah! A gente estava sem repelente também!!!! Não gosto quando querem economizar na van e esquecem a equipe!

QUE APRENDIZADO PODE DIVIDIR, EM FORMA DE CONSELHO, COM QUEM QUER SE AVENTURAR PELO MUNDO PROFISSIONAL DA MODA? Acho muito, mas muito importante mesmo, ser assistente e se dedicar a este trabalho para poder aprender o máximo possível. Vejo várias pessoas que trabalham como assistentes dois ou três meses e logo em seguida se auto entitulam stylists. Ninguém precisa de um diploma para ser um stylist, basta se dizer stylist que a pessoa passa a ser um. Agora, saber fazer o trabalho direito, saber se posicionar perante o cliente ou como lidar com certas situações ninguém aprende sozinho. Fui assistente por aproximadamente 5 anos e o que aprendi com o Dani e com o Paulo não teria aprendido em nenhum outro lugar e muito menos sozinha. E há pouco tempo  aprendi outro tanto quando a Marie Amelie Sauvé veio para o Brasil fazer alguns trabalhos, eu tive a oportunidade de trabalhar com ela (como assistente sim, por que não?!).

A gente também tá amando essas entrevistinhas viu, gente! Amanhã tem Camila Yahn, jornalista de moda e top fazedora de evento de moda aqui no BR - é dela o Pense Moda, sabe?