DESAPEGO x ACERVO PESSOAL

O espaço é limitado, as roupas precisam respirar e, volta e meia, nós reforçamos a importância do desapego, de manter no guarda-roupa apenas o que você realmente usa. Por outro lado, a moda é cíclica e volta e meia uma peça que usamos há dez anos e jurávamos que nunca mais iríamos querer usar aparece nas araras das lojas. Entendeu onde a gente quer chegar? O desapego e o tal do acervo pessoal parecem - mas só parecem! - movimentos contraditórios.

Na nossa opinião, a regra geral é a de que peça com mais de um ano sem uso deve pedir pra sair e liberar a vaga para uma candidata mais esforçada. As concessões ficam por conta das roupas de festa, que merecem um tempinho maior de tolerância, e para aquelas de materiais muito incríveis e nobres.

Um vestido de seda impecável ou um cashmere rico herdado da mãe, por exemplo, talvez mereçam um espaço no armário porque, mesmo que o corte não esteja dos mais atuais, dá para reformar a peça, acinturar um pouco, colocar uma jaquetinha por cima e salvar quem merece ser salvo.

Ter desapego é difícil porque roupa é história, é lembrança afetiva.  Acontece que, como profissionais da moda, precisamos ter uma visão mais empresarial da coisa. Tipo mercado de trabalho. Empresa nenhuma deixa um funcionário encostado por dez anos para “se um dia ele for útil”, a não ser que seja tipo um astro. Se for só uma camisetinha de algodão, ele que vá se reciclar, se atualizar, fazer um MBA e daí a gente pensa em, um dia, recontratar.

Quem andou fazendo MBA recentemente foi a pantalona. Pensa na calça flare. Ela é uma reedição das bocas-de-sino e pantalonas, certo? Acontece que a indústria da moda vive de despertar o nosso desejo pelo novo, é isso que a faz girar, então, claro que ela não ia trazer do mesmo jeito. Embora seja basicamente a mesma coisa - calça jeans com inspiração setentinha - a flare de hoje tem cintura mais ajustada e não é tão larga quanto suas antecessoras. Além disso, de lá pra cá as modelagens mudaram, a tecnologia têxtil mudou.

Com o tempo, a indústria evolui e nós também evoluímos, mudamos. É um pouco improvável que, passados alguns anos, uma peça volte exatamente igual e nos encontre com o mesmo corpo, mesma vida, mesmo imaginário estético, mesmas vontades.

*Juliana Cunha é jornalista e colaboradora do blog da Oficina de Estilo, que sorte a nossa :) ce pode ler outros textos dela pra Oficina aqui -- e os textos autorais dela no Já Matei Por Menos, ó!