PRA QUERER SE VESTIR DE MENINO

Na moda, e em toda a história da Arte, a tal da androginia sempre chamou atenção, pois funde características opostas para criar uma beleza nada convencional. Daí tem essa lenda da mitologia grega que conta que os andróginos eram criaturas esféricas que possuíam os dois sexos ao mesmo tempo (e quatro mãos e duas faces opostas). Como eles eram fortes, tentaram entrar no Olimpo, morada dos deuses gregos, para tomar o poder, mas Zeus – o chefão – diante das ameaças corta os andróginos ao meio. Assim ele condena cada uma das partes a buscar eternamente sua metade, para curar a ferida causada por ele.

E aí, essa beleza que ninguém espera é justamente aquela que nos une a nossa outra metade, só que em toda a nossa independência e individualidade. Esse momento que estamos passando na moda, em especial, tá cheio de referências andróginas, tanto fisicamente, como a modelo Freja Beha Erichsen, quanto em itens do vestuário, como as calças de alfaiataria com corte masculino, o blazer, a camisa, e o sapato Oxford. Mais do que nunca a questão dos gêneros está sendo debatida e explorada.

Mas o que hoje a gente vê com olhos acostumados sempre teve, desde a apropriação das mulheres, um “quê” de subversão, muito mais do que “só” uma vontade de ser vestir diferente – e causava muito escândalo. Como na Alemanha pré-nazista as mulheres usavam cabelos curtos para contestarem o ideal feminino dos nazistas, que queriam mulheres que se dedicassem exclusivamente às crianças, a casa e a igreja.

No cinema a alemã Marlene Dietrich foi, nos anos 30, a primeira atriz a usar roupas masculinas em um filme, com o intuito de provocar os homens ao erotizar suas próprias roupas. Mais de 30 anos depois, Yves Saint-Laurent lança o smoking feminino, e PÁ, todo o mundo da moda se choca novamente. Nesses mesmos anos 60, numa espécie de ressaca do ‘new look’ e de todo o ideário que se construiu em volta da mulher (uma espécie de Betty Draper, que fica de vestido e luva esperando o marido chegar para jantar), surgem ícones femininos que nada tem a ver com isso, como Jean Seberg (do filme “Acossado”) e Twiggy, com seus cabelos “joãozinho” e calças compridas. E como não se lembrar de Diane Keaton em “Annie Hall”, filme da década de 70, de Woody Allen, em que a personagem título tem um figurino masculino, símbolo de um discurso da época, quando as mulheres buscam loucamente a igualdade, o direito de trabalhar, de escolher quando ter filhos, por exemplo.

Quando a gente vê assim, passando na nossa frente essa história de “se vestir de menino”, nossas escolhas na moda são muito mais carregadas de significados do que apenas uma tendência da estação. E quando a gente sabe disso tudo e decide carregar essa carga simbólica com a gente, não estamos só nos vestindo assim, mas estamos fazendo parte de um discurso que busca, desde o comecinho, a igualdade com a nossa metade.