QUAL O NOSSO PROJETO DE PAÍS?

ALÉM DO ESPELHOpor Clara Prado 

Os meus pensamentos sobre os desafios cotidianos da vida – e principalmente sobre minhas escolhas – costumam ter duas pontas: a primeira, a ansiedade e a angústia de achar que é demais pra mim, que desta vez eu não vou conseguir!; a segunda, a felicidade de perceber o tanto que nossa geração tem sorte de ser livre para escolher. Claro que esse nível de liberdade é questionável – principalmente em uma sociedade em que o acesso a tudo está condicionado ao dinheiro. Mas também é claro que somos muito mais livres que nossos antepassados, principalmente nós mulheres. Temos mais liberdade intelectual, individual e política. E, muito preciosa, temos infinitamente mais liberdade de acesso à informação, por meio desta coisa maravilhosa que é a internet e aqui estamos, compartilhando ideias e construindo nossos imaginários e desejos de futuro.

Pois bem, com mais liberdade vem mais responsabilidade. Com esse acesso alucinante a conteúdos, como assimilamos o que vemos e criamos nossas narrativas pessoais? Aqui na Oficina estamos buscando, juntas, construir nossas histórias de vida a partir de escolhas conscientes, para lidar com cada um dos aspectos que nos exigem decisões: vida financeira, alimentação saudável, imagem pessoal, aplicações das tecnologias, uso do tempo livre e outros temas que virão. Mas como devolver à sociedade e ao mundo ações que construam níveis de liberdade ainda maiores que os nossos para futuras gerações?

Acredito que podemos nos implicar verdadeiramente na construção de uma realidade melhor, por meio de nossos atos cotidianos. Mas também acredito que podemos influenciar, cada uma do lugar que ocupa, a consolidação de um imaginário de Brasil mais justo, mais coerente e mais solidário. Agir no micro e agir no macro. Ter gentileza com todos os que nos rodeiam e também ter consciência dos papeis sociais que ocupamos e extrair o máximo deles em benefício do coletivo.

Por exemplo, quando discutimos os índices dos mais de 20 milhões de brasileiros que saíram da pobreza absoluta, ainda ouvimos os argumentos do assistencialismo, da tal diferença entre dar o peixe e ensinar a pescar... cadê nossa sensibilidade para perceber que, neste caso, é quase uma questão de ajuda humanitária, emergencial? Como podemos aceitar viver em um país que nos proporciona prosperidade, ignorando que muitos de nós ainda não têm acesso ao básico para a sobrevivência, como alimentação e saneamento? Claro que o básico é pouco. Claro que precisamos de acesso a educação, saúde, cultura e trabalho para que nosso desenvolvimento seja consistente. Mas não deixemos os argumentos prontos e fáceis acabarem com a nossa solidariedade ao próximo.

Outro ponto importante é fazermos da discussão política uma “coisa feia” em si. Concordo que devemos ser absolutamente intolerantes em relação à corrupção, e não apenas na política. Mas esse é um pressuposto, não esgota a discussão.  Desqualificar toda a discussão política com base nesse argumento faz muito pouco pelas futuras gerações e também faz muito pouco da herança democrática que gerações anteriores nos deixaram às custas de muita dedicação e sacrifícios.

Ninguém aqui está falando de miltância. Estou falando de um sentimento de pertencimento produtivo, que não nos paralize ou desresponsabilize, mas que nos implique e nos mova adiante. A começar por pensar com a própria cabeça e com o próprio coração. Não reproduzir argumentos e opiniões sem torná-los nossos. Não aceitar o caminho mais fácil. Ter consciência de que aquilo que dizemos tem influência sobre a realidade que nos cerca. Inverter a velha lógica de tentar convencer os estrangeiros dos defeitos do país, enquanto eles tentam nos convencer das qualidades. Como se pudesse haver um Brasil que não aquele feito por nós, dia após dia. Temos um projeto para ele? 

Essa é a segunda coluna ALÉM DO ESPELHO publicada aqui pela Clara (que privilégio!) -- um convite pra olhar em volta, pro mundo, tanto quanto temos olhado pra nós mesmas. A gente acredita, junto com a Clara, que com consciência e gentileza é possível influenciar tudo a nossa volta e então contribuir para uma ideia (possível!) de país, mundo, vida melhor pra gente mesma, pras crianças que tamos fazendo, pro futuro. E essa coluna tá rendendo um projeto de exploração cultural da nossa cidade com relfexões feitas em grupo, tudo guiado pela própria Clara -- não é DEMAIS? :)