TODA FORMA DE EXPRESSÃO É CONTEMPORÂNEA

"A menos que eu esteja errado. O que é inteiramente possível. Nós nos enganamos muito frequentemente, quando discutimos o que não aconteceu. Além do mais, no que diz respeito à forma, qualquer especulação futura é profundamente fútil. Exatamente como plantar uma árvore é um ato sem preço, como é vital combater o bom combate contra aqueles que destroem a Terra e não deixam nada para amanhã, da mesma forma me parece irrelevante imaginar como serão os filmes de amanhã, como serão no futuro os filmes de hoje. Nada é tão imprevisível quanto o futuro. Não fazemos filmes hoje para platéias do próximo século, tanto quanto não encenamos Shakespeare para espectadores do século XV. Toda forma de expressão é contemporânea. Trabalhamos para aqueles que compartilham este momento da história conosco. Aqui e agora. Amanhã e em outro lugar: o que podemos dizer sobre isso?"

Esse é um parágrafo do livro "A Linguagem Secreta do Cinema" de Jean-Claude Carrière. Carrière é roteirista e trabalhou em parceria com Pierre Etaix, Luis Buñuel, Jean-Daniel Verhaeghe, Milos Forman e Peter Brook, em filmes tipo Belle de Jour, Danton, The Mahabharata, O Discreto Charme da Burguesia. Ele é brilhante (já ganhou três Oscars) e nesse livro reflete um tanto sobre as diversas dimensões do cinema, entre elas a passagem do tempo. Nessa reflexão sobre as expectativas do futuro de um movimento cultural --que pode ser cinema ou moda (não pode?)-- Carrière deixa claro que: o que o que embasa esse movimento é a contemporaneidade e que, embora saudáveis, discussões sobre o seu futuro são inúteis.

As pessoas usam laranja porque tá na moda ou laranja tá na moda porque as pessoas usam? As pessoas usam laranja porque tá na moda ou laranja tá na moda porque as pessoas usam?

Com o que vemos nas semanas de moda nacionais e com o que vemos nos sites de streetstyle internacionais fica bem claro: a moda hoje se alimenta do que se usa nas ruas do mundo. Quando um birô de tendências faz uma determinada "previsão", certamente existe uma vontade nas pessoas de se vestir assim. As informações não surgem do nada, mas de uma observação do que se "está usando", das motivações dessas escolhas e de uma inclinação que já existe nos "reles mortais" em adotar determinados códigos de vestir.

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Não é engraçado pensar que enquanto discutimos a tecnologia dos tecidos e no avanço que isso possibilita nas criações de moda... o povo quer mesmo é usar viscolycra (pelo menos aqui no BR)? E que, mesmo com todas as transformações propostas pra silhueta masculina, o que mais a gente vê é boy de jeans e camiseta?

Então a gente conclui que o futuro da moda depende do que as pessoas tão usando AGORA. Citando um texto do Ricardo Guimarães para a revista ffwMag, "a tecnologia da comunicação acelerou tanto a vida que o tempo não permite mais intervalos, não tem antes nem depois, somente o durante. Tempo real, ao vivo".

O futuro virou gerúndio, pessoal, e nada mais vai ser -- está tudo sendo. ;-)