CALÇA-COM-VESTIDO

Duas mulheres em uma pequena reunião de trabalho. Eu interrompo com objetivo de dar um recado rápido para uma delas. Assim que abro a porta, uma delas pergunta: “Escuta, isso é um vestido ou uma blusa?”

“Isto é um vestido.”

“E por que você está usando vestido com calça?”

Eu hesito um pouco: “Porque eu... quis.”

Ela mantém uma expressão incógnita: “Eu nunca consigo fazer este tipo de combinação, já tentei várias vezes, mas acho que fica tão estranho. Já percebi que você faz muito isso. Interessante. Como você consegue?”

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Me sinto um pouco desconfortável com a pergunta. Parece que sou uma estranha no ninho. A outra diz: “Eu também já percebi que você se veste diferente. Eu gosto de algumas combinações que você faz.”

Tenho um ataque de risos e digo bem humorada: “Só de algumas? Não de todas?”

Ela fica sem graça e tenta explicar: “Sim, quero dizer, de algumas somente porque tem coisas que eu acho que ficam bem só em você, mas não ficariam bem em mim, eu acho. Nunca experimentei, mas acho que não combina comigo e...”

O assunto esquenta. E a reunião era sobre o quê mesmo? As duas conversam animadamente sobre calça com vestido: qual calça? Qual vestido? Por que parece impossível de ser feito? De que forma se faz isso? Quando, onde, como e por quê?  Calça com vestido virou um assunto e tanto.

Finalmente uma delas me inclui de novo na conversa, investigando cuidadosamente: “Mas é curioso porque às vezes acho que fica bom e às vezes acho que não fica tão bom.”

E sem pensar muito, respondo:

“Olha, muitas vezes faço combinações e quando chego no meio do dia, me olho no espelho e penso: “hum, isso ficou péssimo, não funcionou” e toco o barco! Porque eu prefiro a experiência, sempre. Acho que vale mais a pena a gente experimentar as coisas do que ficar pensando muito sobre elas. Só depois que usei uma roupa é que sou capaz de dizer se gosto dela ou não, se deu certo ou não. E se deu errado, consigo pensar no que farei de diferente da próxima vez. E aí fica interessante. A experiência passa a ser mais importante do que o resultado final.”

E no dia seguinte, uma delas veste uma versão própria de calça com vestido.

Acho divertido! E já não me sinto mais uma estranha no ninho.  :)

((carol eva, autora desse texto, é nossa colega de profissão e tem uma percepção muito linda e especial da nossa relação com o corpo, com a roupa e com a moda. uma sorte e um super privilégio ter colaboração dela aqui na Oficina!))