LABIRINTO: BRASILIDADE PRONTA PRA USAR

"Ao mesmo tempo em que a moda fica mais e mais acessível (pra todo mundo), a indústria começa a ficar obcecada pelo 'não-identificável', pela peça super única que não tenha ligação com determinada temporada ou passarela - então a logomarca, seja escrita pintada ou costurada à roupa, seria agora um desinteresse." A Garance Doré (fotógrafa/blogueira) publicou em seu blog um post em que conta que sabe de pelo menos uma editora de moda que pinta as solas vermelhas dos seus Louboutins de preto pra que seus sapatitos não sejam identificáveis pela marca. A revista Elle americana reproduziu a informação e comentou - foi do texto da Elle que a gente tirou essas aspas aqui em cima. Tem tudo a ver com o nosso tempo, com o nosso entorno e com a nossa consciência isso de largar pra lá o crédito do que que veste e escolher por gosto, por identificação, com alguma emoção. Escolher pela marca não é comportamento de vanguarda (!!!) e quem contribui pra que essa dinâmica continue sendo legal ajuda a atrasar a evolução do mundo.

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Talvez por isso o trabalho de labirinto que a gente conheceu em Fortaleza tenha encantado tanto - vocês conhecem? Labirinto é um jeito de "re-tecer" sedas e linhos pra desfazer a trama original ao mesmo tempo em que se cria uma nova, com novas texturas, formas e estampas. Tudo manualmente, feito com agulhas finíssimas, fio a fio, ponto a ponto. O tecido é esticado numa espécie de bastidor como os de bordado, e com agulha e gilete a trama (feita de fios entrelaçados na horizontal e na vertical) vai sendo desfiada, desfeita mesmo. A partir dos espaços que se abrem pela trama, fios de outra cor são entrelaçados e os próprios espaços - emoldurados por cores e texturas novas - formam padrões originais nos tecidos, que ganham assim aparência diferente de tudo! O que antes era tecido plano apenas, através do trabalho de desconstrução e reconstrução com o labirinto, vira renda trabalhada intelectualmente.

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Diz que essa técnica foi inventada pelos gregos e veio pro BR trazida pelos portugueses - mas lá em Fortaleza ganha contornos e cores bem tropicais, renovados a cada temporada a partir de referências e inspirações personalíssimas. Todo esse trabalho foi apresentado a gente na loja Ethos, de Lucia Neves e Beatriz Castro. Elas mesmas explicaram pra gente que quiseram criar roupas usando essa técnica não só pra deixar as pessoas mais bonitas, mas também "mais aproximáveis, pra facilitar o contato" (quão modernas elas são?!!). O nome Ethos foi escolhido por ter origem grega, como o labirinto, e por significar 'comportamento, costume - conjunto de valores sociais que dão a cada cultura seu caráter próprio'.

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As peças que a gente viu na loja (disponíveis em pequena amostra pra compra online) são delicadas, elegantes, tem cara de qualidade de longe e são diferentes de tudo que a gente já tinha visto até hoje! Brasileiríssimas no feitio e especialmente na aparência, mas nem por isso folclóricas ou fantasiosas - do jeitinho como a gente sonha que o artesanal pode ser: pronto pra ser incluído nos nossos looks com orgulho, com sentido e com essa sensação de contemporaneidade. Faria bonito em qualquer lugar do mundo, viu, e pra isso precisa acontecer primeiro aqui pertinho da gente. Por um universo imagético menos pasteurizado, menos globalizado, mais diversificado e cheio de cultura pra gente trocar e aprender.