O BARATO DE UMA NÃO TEM QUE SER O BARATO DA OUTRA

Abriram as portas. Quer dizer, abriram a primeira Forever 21 de São Paulo. A loja já chegou com filas de cinco horas e vendendo o dobro do esperando em seu primeiro fim de semana. Achamos que isso era motivo o bastante para pensar um pouco nas consequências dessa chegada tanto no nosso mercado de moda quanto no nosso guarda-roupa.

Para começar, o que emocionou os consumidores não foi exatamente a vinda da loja, mas a vinda com preços similares aos praticados lá fora quando a praxe no Brasil é que lojas gringas baratinhas cheguem aqui com status de grife e qualidade de sacolão. O problema com a importação do conceito de “fast fashion” para a realidade brasileira é que as roupas vendidas aqui como “fast fashion” têm a mesma qualidade reduzida e custo social e ambiental elevados que caracterizam a “fast fashion” dos países mais ricos, só que por um preço alto. Ou seja, pagamos caro por uma roupa que não compensa nem no conceito, nem no material.

A relação que o consumidor brasileiro tinha com as lojas de departamento até poucos anos atrás não era uma relação de comprar modinhas descartáveis, pelo contrário, eram lojas ecléticas e relativamente em conta onde as famílias de classe média podiam se abastecer de roupas para o dia-a-dia. Ninguém ia à Mesbla achando que era ok uma roupa durar menos de dez lavagens: o nosso poder de compra não suportava essa lógica. A parte boa dessa limitação de recursos é que o brasileiro teve que estabelecer uma relação menos consumista com o vestuário e até hoje a gente nota uma disparidade entre o que é ser consumista na visão de um brasileiro de classe média e o que é ser consumista na visão de um americano de classe média. (Eles compram muito mais e, sabe de uma? Azar o deles, não se vestem nem um pouco melhor por conta disso!).

O lado bom da vinda da Forever 21 é que isso pode dar um merecido choque de realidade em lojas como C&A, Renner, Riachuelo e Hering (que antes vendia um algodãozinho honesto, hoje castiga no poliester e nos preços de Zara) e um puxão de orelha em lojas que deviam fornecer um produto melhor, que cobram preço de produto melhor, mas cuja qualidade cai a olhos vistos (Farm, Bô.Bô, M. Officer, MOB, Maria Garcia… estamos olhando para vocês). Não dá para continuar cobrando um absurdo por vestidinhos de tecido artificial e sem forro quando o concorrente está vendendo produtos similares por R$ 25.

A parte ruim é entrarmos em uma lógica gringa de ter um milhão de roupinhas vagabundas, de comprar uma coisinha toda semana, um vestidinho a cada ida ao shopping só porque “está barato”. Há pessoas no Brasil que não têm mais do que R$ 25 para dar em um vestido. Será que são essas as pessoas que aproveitam cada viagem ao exterior para trazer um carregamento industrial de H&M e Primark? Será que são essas as pessoas que já estavam de olho na abertura da Forever 21 e que correram para a fila? Ou será que quem anda comprando nessas lojas não são justamente as pessoas que poderiam sim comprar menos e melhor, dar mais valor ao processo de produção da roupa, ao acabamento, ao material, ao custo social e que teriam um guarda-roupa mais enxuto e significativo se não cedessem ao canto da sereia da Forever 21 e seus similares?

Em resumo, o que a gente pensa é que ter uma “fast fashion” que cobra o que vale é super benéfico em um contexto em que o nosso mercado de moda está desregulado e cobrando demais por moda de menos, mas a gente continua desacreditando no conceito de “fast fashion” e achando que quem ganha um pouco melhor faz um favor a si mesmo e ao mundo quando decide ter menos coisas com mais significado. E, já que chegamos até aqui, vamos combinar que é cafona demais querer ter 21 para sempre!

*Juliana Cunha é jornalista e colaboradora do blog da Oficina de Estilo, que sorte a nossa :) ce pode ler outros textos dela pra Oficina aqui -- e os textos autorais dela no Já Matei Por Menos, ó!