ROUPA É PRA SER DANÇADA

Helio Oiticica foi um artista super importante - e super brasileiro! - que experimentou mil coisas nos seus trabalhos, tipo pintura, escultura, performances e... costura. Oiticica inventou o que chamou de parangolés, capas gigantes ou "bandeiras de vestir", cheios de cores e texturas e movimento. Esse movimento, inclusive, era o essencial à "obra" segundo o próprio artista: o parangolé só ganhava vida se vestido por alguém - e não só isso, o parangolé também precisava ser dançado! "A obra só existe plenamente, portanto, quando da participação corporal: a estrutura depende da ação." Diz o próprio Helio Oiticica que o objetivo do parangolé é ser usado/dançado pra "dar ao público a chance de deixar de ser público espectador, de fora, para ser participante na atividade criadora."

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E aí que a gente aqui na Oficina pensou que também é (ou deveria ser) assim com tudo que a gente veste - ou tem vontade de vestir. Moda só vale se usada com sentido, conversar sobre ela não faz com que ela tenha eficácia alguma. Roupa no cabide é uma coisa e, a gente sabe bem, no corpo é outra. E é no corpo que qualquer moda toma vida, "vale como obra". Coleções com temas definidos podem se relacionar com quem a gente é e com o que a gente quer pra vida. Pensa na relação íntima de uma aspirante a cineasta com a coleçãoque a Huis Clos fez inspirada no trabalho de luz e sombras da fotógrafa Sarah Moon. Ou no significado de alguém muito idealista-transgressor-ativista-da-sustentabilidade usar uma peça de brechó original dos anos 70. Ou numa professora de literatura que compra uma camiseta da coleção do Noel Rosa feita pelo Ronaldo Fraga tempos atrás. Ou ainda na Marina Silva usando colares feitos em povoados indígenas do Pará. ((Até hoje eu me arrependo de não ter nenhuma peça de uma coleção de 2008 da Giselle Nasser inspirada em Bat for Lashes!))

Quem curte moda pode muito fazer essa moda viver. Pode experimentar, pode "dançar a roupa", deixar de ser público espectador pra ser participante da atividade criadora. Porque o artista mesmo deu a lição quando disse que "o ato do espectador carregar a obra revela a totalidade expressiva dessa obra: a estrutura atinge assim o máximo de ação própria no sentido do 'ato expressivo'. A ação é a pura manifestação expressiva da obra (...) e para que a ação aconteça, exige-se a participação inventiva e improvisada do espectador". Em vez de só escolher-e-vestir, a gente pode procurar significado nas peças que coordena e se relacionar com a motivação com que a roupa foi criada. No lugar de ser só bonitinha, a gente pode aproveitar pra oferecer ao outro elementos pra serem "lidos", decifrados, no nosso look - pra acrescentar conteúdo próprio (nosso) ao que a gente veste, acrescentar interessância à aparência (e à vida). Que contem estórias boas, que rendam assunto.

Tá todo mundo autorizado então, a partir de agora, a provar, participar e fazer a moda viver. Cada uma no seu corpo, no seu armário, na sua vida real. Com uma galeria de imagens de parangolés super bem vividos/dançados pra inspirar. ;-)