MODA QUE REFLETE VALORES

A T Magazine, revista de moda e comportamento do New York Times, fez um artigo sobre como roupas simples e comerciais costumavam ser a antítese da alta moda, mas agora são o ponto de referência para os estilistas. A crítica de moda Cathy Horyn diz que há uma tendência das grifes que antes traziam drama, teatro e inovação em trazer roupas mais usáveis, menos criativas, porém mais pé no chão. Para ela, isso se dá por conta de uma adaptação aos valores atuais: as pessoas estão ligando menos para inovação e criatividade e mais para tradição e adequação. A falta de grana (alô crise financeira na Europa) também faz com que mesmo o público de elite prefira investir seu dinheiro em roupas que vão render mais uso do que em peças originais para usar de vez em nunca.

O artigo explica ainda como a moda passou de um período de sofisticação técnica e tradição no início do século 20 para um perído de semiótica e desfiles cheios de significados ocultos na década de 1980. Para ela, a tendência agora é a simplificação geral.

Traduzimos aqui os trechos mais interessantes:

(...) A ascensão da alta costura no início do século 20 se relaciona com os avanços da comunicação e com a possibilidade de viajar mais, assim como com o interesse incomum do público neste mundo tão rarefeito. Há relatos famosos sobre policiais e taxistas parisienses que eram capazes de reconhecer a procedência de uma roupa de alta costura. Fala-se, por exemplo, de um policial que, na década de 1930, se recusou a prender uma agitadora feminista alegando que ela vestia um Molyneux. Na década de 1960, todos sabiam a última moda, senão por Mary Quant, através dos Beatles.

Mas, em algum momento no final dos anos 1980, a moda descobriu a semiótica. Roupas de repente adquiriram significado (pense nos esforços para ‘decodificar’ os desfiles de Helmut Lang e Martin Margiela). Você realmente precisa ser um especialista no assunto para entender por que a jaqueta é vestida do avesso ou por que um vestido que te faz parecer uma mendiga é legal. Susan Sontag descreveu uma mudança similar no mundo das artes, em meados dos anos 1960, observando que ‘a arte mais interessante e criativa de nosso tempo não é aberta para amadores; exige um esforço especial; fala uma linguagem especializada’. Hoje, com a aproximação entra a alta moda e a comunicação de massa — com canais do YouTube mantidos por marcas, filmes, grandes espetáculos — há uma pressão para simplificar as coisas. Talvez o surgimento de marcas novas, com desfiles por vezes repletos de um design estranho e banal, também tenha feito com que os designers de elite repensassem as coisas, priorizando uma roupa mais simples.

(...) Vimos nossos horizontes se encurtarem. A desigualdade de renda é o principal motivo; as pessoas simplesmente não podem se dar ao luxo de arriscar novas experiências. Também é verdade que coisas com as quais nunca tivemos que nos preocupar -como smartphones e novos tipos de entretenimento- tomaram nossas mãos, inspirando-nos em muitos aspectos, mas também estreitando nossa visão com todo o tipo de grades de proteção, de modo que o que antes era nobre hoje é somente uma via rápida e universal para a fabulosidade”.

*Juliana Cunha é jornalista e colaboradora do blog da Oficina de Estilo, que sorte a nossa :) ce pode ler outros textos dela pra Oficina aqui -- e os textos autorais dela no Já Matei Por Menos, ó!