do blog Dus Infernusde VITOR ÂNGELO 04 de abril de 2009 https://dusinfernus.wordpress.com/2009/04/04/michelle-ma-belle/

Mais do que os vestidos ou o corte de cabelo, a atenção que Michelle Obama tem despertado entre os fashionistas aponta que a moda caminha para aquilo que nós brasileiros conhecemos tão bem: a informalidade. O polêmico e benvindo gesto da primeira dama com a rainha da Inglaterra – com o detalhe da retribuição da própria rainha – é um exemplo dessa informalidade que a cada dia se projeta mais e mais mundo afora para chocar uns e agradar outros.

Essa informalidade – que é muito importante não confundir com falta de educação – está na raiz do nosso país. O historiador Sérgio Buarque de Hollanda ao comparar a colonização portuguesa com a espanhola, percebe que as cidades criadas pela Espanha na América querem transmitir o “triunfo da aspiração de ordenar e dominar o mundo conquistado”. Já as portuguesas eram sem “nenhum rigor, nenhum método, nenhuma previdência”. Tudo era retilíneo nas cidades da América espanhola enquanto tudo é mais solto, ao acaso no Brasil. Isso levado ao extremo podemos chamar de desleixo como o próprio historiador assim enxergava, mas também estão ali as bases de algo mais informal, longe das regras sociais mais duras e rígidas, aquilo que afinal seria conhecido pelo termo Homem Cordial, “o brasileiro, aquele que não suporta formalidades”. Apesar de sempre achar Caetano delirante, ele delirou bem nesse vídeo ao perceber que os Obamas querem imitar os brasileiros.

No vídeo, ele se refere à questão racial, mas cada vez fica mais evidente que a questão é comportamental e com isso, vivemos um momento paradigmático. A elegância com sua Socila de boas maneiras vira uma página com a entrada da informalidade dos altos escalões do poder, sendo Lula o cara ou não. As elegâncias das velhas primeiras-damas já não cabem no abecedário do que Michelle está nos trazendo. Precisamos de um novo olhar e de um novo conceito de elegância pra entender o que exatamente Michelle Obama está realizando. E por fim, talvez surgirá um olhar que não acredite na elegância de homens de terno no centro do Rio de Janeiro ao calor de 40º, que despreze e descorde da atitude do Judiciário quando da demarcação de terras na reserva indígena de Raposa/Serra do Sol impedindo os índios de acompanhar a audiência no plenário porque não estavam de terno e gravata. Pode não parecer, mas ao abraçar a informalidade Michelle Obama nos traz um mundo mais tolerante e não por isso menos elegante.

@ Dois textos que guiaram esse meu pensamento: “Os Braços de Michelle” de Alcino Leite e “Leitura dos Looks das Primeiras Damas” de Fernanda Resende.